O Afeganistão prestes a viver novo colapso

04 de Agosto de 2015
Por Henry Galsky A morte de Mulá Omar ainda repercute. O evento é decisivo para o Afeganistão porque o Talibã está na base da estrutura política e social do país. Há informação de que a transição será complicada, na medida em que a família de Omar se opõe à escolha de Akhtar Mohammad Mansour como seu sucessor. Curiosamente, o lado realista da doutrina Obama considera a morte de Mulá Omar como um golpe de retrocesso. Não porque o Talibã unificado seja um exemplo de bom senso, muito pelo contrário, mas pelo simples fato de que o grupo considerava, até este momento, o caminho das negociações com o governo afegão como a melhor alternativa para continuar a existir. 

Essa realidade está em risco. A família de Omar sinaliza oposição à escolha de Mansour e pretende que o processo de sucessão seja conduzido por estudiosos islâmicos e veteranos ligados ao movimento. A possibilidade de divisão interna é grande e pode vir a desfazer os difíceis passos estratégicos que foram dados pelos atores envolvidos na busca por uma saída diplomática. 

O último mês de julho representou o ponto alto das maiores esperanças para encerrar os 14 anos de conflitos entre as forças oficiais afegãs e o Talibã. O Paquistão, ator de legitimidade regional e formalmente aliado aos EUA, mediava negociações entre o Talibã e o governo do Afeganistão. Na sequência do reconhecimento da morte de Mulá Omar, o presidente afegão, Ashraf Ghani, emitiu comunicado convocando as forças de oposição a se engajarem nos esforços diplomáticos. Não funcionou. Por ora, as conversações estão suspensas e ainda não há previsão para que sejam restabelecidas. 
Akhtar Mohammad Mansour, que se pretende sucessor de Mulá Omar na liderança do Talibã, é favorável às negociações. Como Omar, percebeu que este é o único caminho para sobreviver no novo Afeganistão. As perdas de homens e recursos nos 14 anos de enfrentamento contra os ocidentais são consideráveis. Mas não se trata somente disso. O Talibã está perdendo relevância no jogo regional. O Ocidente ainda não encontrou um modo efetivo de frear as ambições do Estado Islâmico, grupo terrorista que representa a principal ameaça à existência do Talibã. Mais ainda, ele se assume como a maior ameaça aos Estados nacionais. Estruturas frágeis, como o Afeganistão, são alvos fáceis. O país ainda busca criar instituições, luta para se reconstruir após 14 anos de guerra, tenta juntar cacos depois de 20 anos de domínio talibã. Se o Talibã seguisse adiante em negociações, haveria uma possibilidade de trilhar um caminho formal e mais previsível.

Caso o grupo venha mesmo a se dividir, o destino do país estará novamente em aberto e disputado por quatro forças: o governo afegão, os talibãs leais a Mansour, os que rejeitam o novo líder e lutam por poder interno, e o Estado Islâmico. Com a missão americana concluída desde o ano passado, as forças oficiais afegãs estarão por conta própria para lutar pelo renascimento de um país que, neste século, ainda não sabe o que é institucionalidade plena.