A derrota do Estado Islâmico em Ramadi, no Iraque, e a divisão sectária no país

28 de Dezembro de 2015
Por Henry Galsky A cidade de Ramadi, na província de al-Anbar, no Iraque, é considerada de grande valor estratégico. Localizada a cerca de 130 quilômetros a oeste de Bagdá, a província faz fronteira com a Síria, Jordânia e Arábia Saudita. Ao que parece, Ramadi agora está novamente sob controle do governo iraquiano, uma conquista importante da aliança que combate o Estado Islâmico. Escrevi sobre Ramadi e al-Anbar em maio, justamente quando o EI havia tomado a cidade. 

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Sem a menor dúvida, sua libertação é um ato relevante na ampla luta que vem sendo travada contra o grupo terrorista. Mas é preciso enxergar também os desafios políticos e sociais que estão colocados daqui para a frente. Quem acompanha o site sabe que não é possível analisar o Oriente Médio sem considerar também a disputa sectária entre sunitas e xiitas. Não apenas o jogo geopolítico regional se desenvolve em função disso, mas o próprio EI estabelece a vitória sobre o xiismo como prioridade de sua luta. Antes de qualquer outra característica, o EI é, acima de tudo, sunita. 
Esta situação é especialmente simbólica no Iraque. O país de maioria xiita (cerca de 63% de sua população) foi até 2003 governado pela cúpula política e militar sunita de Saddam Hussein. O temor da população sunita era viver sob o domínio revanchista xiita após a morte ou deposição do ditador iraquiano. E foi exatamente isso o que aconteceu. O governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, que sucedeu Saddam Hussein, alijou a população xiita do governo, criando um abismo social entre as duas populações iraquianas, fortalecendo as disputas sectárias e, por consequência, criando o ambiente ideal para o desenvolvimento do EI. 

Ao reconquistar Ramadi, o Estado iraquiano pode ter uma segunda chance com os sunitas. Al-Anbar é a província onde vive a maioria da população sunita do país. O atual primeiro-ministro, Haider al-Abadi, pode estabelecer novos paradigmas para a relação entre os grupos  que formam a população do Iraque se conseguir mostrar aos sunitas que tem um projeto inclusivo. Um dos aspectos mais “atraentes” do discurso do EI é justamente apostar no temor sunita de que os xiitas iraquianos – o governo do país – não estão dispostos a incluir a população sunita. 

Para além das armas e das estratégias de retomada física dos territórios controlados pelo Estado Islâmico, a aliança internacional que combate o EI só conseguirá alcançar uma vitória plena se deixar muito claro que, no caso iraquiano, a divisão sectária não é mais uma realidade. Considerando que o exército e o governo iraquianos são dirigidos pela maioria xiita, será preciso convencê-los a não repetir os erros de Nouri al-Maliki. A oportunidade de mudar os rumos do jogo está nas mãos do primeiro-ministro Haider al-Abadi.