A polarização é a marca mais evidente deste início de século 21

27 de Janeiro de 2016
Por Henry Galsky Quando logo no início dos anos 1990 a União Soviética chegou ao fim, muita gente apostou que este grande acontecimento marcaria não apenas o desaparecimento do comunismo institucional, mas também acabaria com a polarização ideológica em escala global. O mundo, até então dividido entre duas potências militares incontestáveis, entraria num processo profundo de transformação. O que deveria ser bom, evidentemente. Em 50 anos de século 20 pontuados por ameaças de destruição planetária iminente, a polarização passou a ser – de maneira consciente ou não – o grande temor mundial. 

Escrevi tudo isso para chegar exatamente ao ponto da polarização. O termo, que evidencia o confronto muitas vezes irreconciliável entre partes, entrou século 21 adentro. O fim da Guerra Fria trouxe a falsa sensação de segurança propiciada pela percepção de fim da História, para usar uma expressão que definiu parcialmente a metade final da década de 1990. 

Bastou o primeiro ano do século seguinte para evidenciar o oposto; a polarização estava mais viva do que nunca. E este conceito perdura sem sinal de tréguas. 

No lugar da Guerra Fria, um confronto ideológico, imprevisível e certamente irracional. A ascensão do fundamentalismo islâmico a protagonista internacional carrega intrinsecamente a ideia de divisão permanente – muito embora esteja muito claro que a História não chega a um fim, mas se transforma e se desenvolve em ciclos. 

E a polarização acentuada deixa marcas em toda a experiência humana. As relações internacionais, a política de maneira mais ampla, as comunicações, a manifestação humana neste século 21, marcado justamente por esta narrativa polarizada, são influenciadas profundamente por esta característica. 

Considero esta grande introdução – que evito sempre fazer – necessária para iniciar as análises sobre as eleições americanas deste ano. De maneira bastante marcante, poderemos assistir à disputa pelo cargo político mais importante do mundo sendo travada por candidatos que representam a oposição absoluta de ideias, mas que, curiosamente, representam o retrato fiel de um mundo dividido com numa discussão onde todos gritam ao mesmo tempo. 

Bernie Sanders e Donald Trump podem vir a ser os candidatos dos partidos Democrata e Republicano, respectivamente. Sanders, autointitulado socialista e que defende, por exemplo, a universalização do acesso à saúde, pode disputar a presidência com Trump, empresário que nega direitos a imigrantes, que pretende obrigar o México a pagar pela construção de um muro na fronteira com os EUA e tem orgulho de ser um radical do liberalismo econômico.  

Há muito a ser dito sobre a corrida presidencial americana. Neste primeiro momento, acho importante ressaltar a inserção da política dos EUA no eixo de seu tempo. A polarização transcende culturas e Estados nacionais. Ela me parece ser, de fato, a característica mais importante do nosso século, algo que, até agora pelo menos, está presente nos mais diversos acontecimentos, presente nas mais diversas manifestações humanas. Nos próximos textos, mais análises específicas sobre a disputa pela presidência americana.