A vantagem de Bernie Sanders sobre Hillary Clinton

01 de Fevereiro de 2016
Por Henry Galsky A possível escolha de Bernie Sanders como candidato Democrata à presidência americana ainda é extensão do fenômeno político representado por Barack Obama. Muito reverenciado pelos dois principais pré-candidatos do partido (Hillary Clinton e o próprio Sanders), o atual presidente americano deixa evidente que sua marca está impressa entre os Democratas. O surgimento do fenômeno Obama durante a corrida presidencial de 2008 fez o mundo inteiro transformá-lo num candidato quase mitológico. Dois mandatos depois esta imagem está desgastada, claro, mas não enterrada. Para os americanos, seu presidente é um símbolo de transformação que o diferencia do mundo conhecido – e rejeitado – da política.
 
Esta imagem é muito forte entre os eleitores Democratas. A percepção de que Obama é um político diferente dos pares – e rivais –  não se deve somente ao fato de ele ser negro. Isso não é pouco, mas é apenas uma parte da narrativa. Obama se transformou num sucesso midiático e eleitoral por soar como novidade, por parecer um não-político (muito embora, antes de ser eleito presidente, já tivesse experiência de dois mandatos como senador).
 
Por isso, a corrida pela indicação Democrata acontece em torno de dois eixos: a tentativa de Hillary de desmistificar a figura de Sanders antes que ele também se transforme num fenômeno (processo que está em curso); e a disputa entre os pré-candidatos na tentativa de reivindicar a herança política de Obama.
 
Para azar de Hillary, a biografia de Bernie Sanders e suas lutas históricas tornam o processo polarizado também internamente no partido Democrata. E quanto mais polarizado, mais evidente o perfil ideológico de Sanders – e menos político, no sentido como os eleitores entendem e, repito, rejeitam a política tradicional. Autodenominado socialista, o senador pelo estado de Vermont não procura conciliação e se assume como vidraça. Um candidato à presidência assumidamente socialista nos EUA poderia ser comparado a um candidato brasileiro assumidamente ateu concorrendo por um dos principais partidos políticos brasileiros, por exemplo. Ao não abrir mão de suas posições – mesmo que correndo grande risco de rejeição –, Sanders também preenche o imaginário do político não-político (muito embora tenha 24 anos de carreira política).
 
Hillary, ao contrário, é vista como política tradicional. A ex-primeira dama, senadora e secretária de Estado está desgastada pelas investigações sobre uso de sua conta de email pessoal para tratar de assuntos de segurança nacional enquanto ocupava o cargo mais importante da política externa americana, em 2012. E quanto mais Hillary tenta rotular Sanders como inelegível e incapaz em virtude de sua idade (Sanders tem 74 anos e Hillary, 68), mais o senador de Vermont parece menos político e estratégico e mais ideológico, aproximando-se (perigosamente, para Hillary) do que parte dos eleitores Democratas consideram um “fenômeno” que a política tradicional não consegue produzir. Exatamente como Obama.
 
Isso não significa de nenhuma maneira que Bernie Sanders irá se tornar o próximo Obama. Mas mostra como o jogo se inverteu e está dando um nó nas campanhas políticas e no processo de construção de candidatos vitoriosos. Sanders, ao contrário de Hillary, parece ser o candidato que se encaixa neste perfil naturalmente porque sua carreira está estruturada mais sobre escolhas e reafirmações ideológicas do que articulações pragmáticas. Poderia ser uma desvantagem para ele, mas nesta janela histórica acabou se tornando seu principal trunfo.