O processo político americano e o potencial de Bernie Sanders

04 de Fevereiro de 2016
Por Henry Galsky O sistema eleitoral americano é complexo. A corrida presidencial é uma guerra travada em sucessivas batalhas. O processo de escolha dos candidatos é tão intrincado que muitos americanos se sentem perdidos. Mas, em contraste com a simplicidade brasileira (cujos resultados são de fácil entendimento), os cidadãos americanos podem assistir ao debate entre candidatos que realmente foram escolhidos pelos membros dos partidos Republicano e Democrata. 

Na última segunda-feira, o primeiro passo da longa caminhada até as eleições de novembro. Entre os Democratas, a disputa concentrada entre Hillary Clinton e Bernie Sanders aponta uma vantagem mínima para a ex-secretária de Estado. A tendência é que ambos se mantenham próximos até o final. No final das contas, independente da preferência política, o sistema, mesmo confuso, parece fazer mais sentido. O candidato escolhido de fato irá representar a vontade dos membros do partido. Por aqui, o processo de escolha das principais legendas políticas é por vezes difuso, acontece a partir de articulações entre os principais nomes do partido. Os americanos encontraram um caminho onde os filiados têm a decisão final. Isso faz toda a diferença. 

Comentei em minha última análise sobre a disputa entre Hillary e Bernie Sanders. Com discurso fortemente ideológico, o senador pelo estado de Vermont é um fenômeno, mas está longe de agradar a todos os setores do partido Democrata:

“Ele se define como socialista. Não me parece que este seja um bom título para concorrer à presidência dos EUA”, diz Steny Hoyer, representante Democrata de Maryland no Congresso. A posição de Steny Hoyer está muito longe de ser decisiva, mas evidencia parte do pensamento político do partido. 

Sanders sabe que está comprando desafetos internamente. Também sabe que esta estratégia de não abrir mão de seus ideais têm enorme poder eleitoral – especialmente entre os mais jovens. No cáucus de Iowa, em que foi derrotado por apenas 0,3% da preferência, o senador recebeu o apoio de 84% dos participantes com menos de 30 anos de idade. Este percentual se reduz a 58% (um número igualmente expressivo) entre os participantes de 30 a 44 anos de idade. Se Sanders realmente se confirmar como fenômeno entre os cidadãos jovens, sua candidatura terá enorme potencial. Atualmente, quase 40% da população americana têm entre 25 e 54 anos. As possibilidades da candidatura estão diretamente atreladas à capacidade de expansão também às faixas etárias que menos se sentem representadas pelo discurso de Sanders (em Iowa, Hillary Clinton recebeu 69% do apoio entre a população com mais de 65 anos de idade). 

Este teste de alcance também lança o grande dilema ao candidato ideológico (o “não-político”): Sanders está disposto a reduzir a potência de seus discursos para se adequar a segmentos mais sensíveis? Se estiver – e se conseguir reivindicar a herança da transformação política e conciliatória de Obama –, poderá derrotar Hillary Clinton.