Atentados em Bruxelas, a visita de Obama a Cuba e o novo ciclo global

22 de Março de 2016
Por Henry Galsky É circunstancial que os atentados em Bruxelas tenham ocorrido no dia seguinte ao encontro entre os presidentes dos EUA e Cuba em Havana. É também circunstancial que, além deste evento histórico, os ataques aconteçam no dia seguinte a importantes declarações do candidato republicano Donald Trump sobre sua estratégia internacional. De um lado, o auge da visão global de Barack Obama no final de seu mandato; do outro, o orgulho de se fechar ao mundo promovido por Donald Trump. 

Ao longo de seus oito anos na Casa Branca, Obama pode não ter locupletado as expectativas pela refundação das Relações Internacionais americanas criadas por sua candidatura. Mas é inegável que, diante de um mundo em transformação e com desafios cada vez mais complexos, Obama conseguiu alcançar objetivos importantes e quebrar tabus. O encontro com o presidente cubano, Raul Castro, é o ponto alto da política externa de Barack Obama. As metas de seu governo eram ambiciosas e, em função de muitas circunstâncias, não foram atingidas de maneira plena; não foi possível alcançar um acordo de paz entre israelenses e palestinos, nem realizar a promessa de campanha de fechar Guantánamo; não foi possível estabilizar o Iraque de maneira definitiva, nem alcançar um novo parâmetro nas relações entre EUA e os países árabes – e, mais além, entre o país e os muçulmanos de forma mais ampla; tampouco Washington conseguiu deixar de vez o Afeganistão. 

Por outro lado, o presidente termina seu mandato com duas conquistas internacionais relevantes (e igualmente complicadas): o início da reabilitação internacional do Irã a partir do acordo nuclear (que, além do próprio acordo, conseguiu, por ora, impedir uma nova guerra no Oriente Médio – conflito dado como certo, em função da subida de tom das lideranças iranianas e, como resposta, também da cúpula de governo israelense). E, por fim, o início da retomada das relações com Cuba. O que definitivamente não é pouco. O discurso de Obama em Havana  tem muito a ver com o início da exposição de sua estratégia internacional lá atrás, quando tentou inaugurar uma nova era nas relações entre EUA e a comunidade islâmica no famoso discurso realizado na Universidade do Cairo, em 2009. Em certo sentido, as posições de Obama permanecem as mesmas; o fortalecimento da sociedade civil e o incentivo ao empreendedorismo – este último, termo fundamental da visão internacional do presidente americano. Não por acaso ele anunciou um acordo entre o Google e as autoridades cubanas de forma a melhorar os serviços de internet na ilha. 
Os atentados na Bélgica lembram os desafios importantes que deverão continuar a ser enfrentados pelo próximo ocupante do Salão Oval. Se durante os últimos oito anos assistimos aos movimentos de um presidente empenhado em fortalecer alianças e organismos internacionais (muito mais que seus antecessores, é preciso lembrar), há agora uma dúvida relevante: se Donald Trump vencer as eleições de novembro, como serão as relações entre EUA e o resto do mundo? Não há clareza sobre isso. Mesmo os  países aliados dos EUA devem sofrer consequências. Inclusive os europeus, já que o empresário considera, por exemplo, a Otan (a aliança militar ocidental) uma fonte de despesas, ignorando a importância estratégica e o posicionamento global em longo prazo. O secretário de Estado John Kerry, um dos mais empenhados na política externa multilateral do governo Obama, é alvo das principais críticas do candidato republicano. 

“A Otan está nos custando uma fortuna. Estamos protegendo a Europa, mas gastando muito dinheiro. Certamente não podemos mais pagar por isso”, disse. 

No dia em que a Bélgica sofre dois ataques terroristas este tipo de declaração causa ainda mais dúvidas sobre como os EUA irão atuar no campo internacional no caso de uma eventual vitória de Trump. A aliança entre americanos e europeus transcende questões partidárias nos EUA há mais de 70 anos. E as dúvidas não param por aí, na medida em que o próximo presidente americano poderá lidar também com o enfraquecimento político europeu em função do referendo que pode resultar na saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE). A vitória de Trump pode marcar o início de um ciclo sem precedentes de isolamento político dos EUA. E, quando a maior potência planetária assume esta posição, pode também iniciar um período de isolamento global. Com a UE enfraquecida – e eventualmente até desmembrada –, o multilateralismo promovido pelos oito anos de mandato de Barack Obama pode dar lugar a um novo ciclo de reversão e isolacionismo.