Terrorismo no Paquistão e a fragilidade de uma potência nuclear

31 de Março de 2016
Por Henry Galsky O ataque suicida contra a minoria cristã paquistanesa não é um ato isolado. O Paquistão, país aliado americano no sudeste asiático, é um ator regional muito relevante do ponto de vista estratégico: ao mesmo tempo em que mantém histórico de confronto com a Índia (também aliada aos EUA) criando uma zona de atrito e volatilidade, é considerado parte fundamental do processo de estabilização no vizinho Afeganistão. Nunca é demais lembrar que a ideia do presidente americano, Barack Obama, era concluir seus mandatos tendo conseguido alcançar estabilidade mínima no território afegão. É pouco provável que isso aconteça. 

As conexões entre os acontecimentos no Afeganistão e no Paquistão são evidentes. É no Afeganistão que grupos terroristas que pretendem desestabilizar o Paquistão mantêm suas bases de operação (o objetivo desses grupos também é derrubar o governo afegão que conta com apoio americano). Neste momento, o governo paquistanês – que busca estabilizar o país – é acusado por esses mesmos grupos de ser muito próximo ao Ocidente. A acusação, na prática, é uma crítica a medidas tomadas pelo primeiro-ministro Nawaz Sharif, considerado moderado: no início de março, o governo determinou o reconhecimento da Páscoa cristã e dos feriados hindus de Diwali e Holi. Cristãos e Hindus compõem cerca de 2% da população paquistanesa. 

O Jammat-ul-Ahrar, grupo responsável pelo ataque que deixou 72 pessoas mortas durante a Páscoa cristã, era aliado do Talibã paquistanês, e agora jura fidelidade ao Estado Islâmico. No ano passado, já havia atacado duas igrejas, matando 14 pessoas. O atentado do último dia 27 de março ocorreu em Lahore, capital do Punjab, justamente a base de apoio político do primeiro-ministro Nawaz Sharif. 

O que está em curso agora é a mesma batalha que historicamente é travada no Paquistão: a estabilidade promovida pelos moderados ou a virada rumo à radicalização. E esta é uma disputa que tem muito impacto regional e global; o arsenal nuclear paquistanês hoje varia entre cem e 120 ogivas, mas a quantidade de urânio enriquecido permitiria ao país alcançar 350 na próxima década, o que deixaria o Paquistão na terceira colocação global entre os principais arsenais nucleares. 

O cenário da radicalização

Ao longo desta semana, manifestantes protestam contra a execução, no mês passado, de Mumtaz Qadri, ex-policial que, em 2011, assassinou Salmaan Taseer, então governador da província de Punjab. Mumtaz Qadri passou a ser considerado um herói do fundamentalismo porque deu 28 tiros no governador (de quem era guarda-costas, inclusive) que, naquele momento, defendia Asia Bibi, uma mulher cristã que havia sido condenada à morte em função das chamadas “Leis de Blasfêmia”. Na prática, Asia foi condenada por supostamente fazer comentários negativos sobre o Profeta Maomé durante discussão com uma mulher muçulmana. As únicas testemunhas do caso foram a própria mulher que acusou Asia e a irmã dela. Asia ainda está viva, mas, depois da morte de Qadri, a pressão para que ela seja enforcada voltou a aumentar.