Mesmo com a vitória interna de Hillary Clinton, Bernie Sanders ainda aprofunda divisão no partido

07 de Junho de 2016
Por Henry Galsky Apesar de os números apontarem claramente que a ex-secretária de Estado Hillary Clinton será a candidata do partido Democrata à presidência americana, o senador Bernie Sanders ainda mantém as esperanças de conquistar a indicação. No complexo sistema eleitoral dos EUA, Sanders espera levar a disputa à Convenção Democrata, em julho. O candidato inclusive se recusa a conceder a vitória a Clinton, tendo como principal argumento as pesquisas de intenção de voto que mostram sua eventual vitória sobre o virtual candidato republicano Donald Trump. 

O argumento do senador não é incorreto. Aliás, existe aqui um paralelo interessante a se fazer sobre os dois partidos. Há certa lógica do menor prejuízo. Para os republicanos, a candidatura de Trump é um grande prejuízo porque reafirma rótulos e slogans que o partido trabalhou muito para excluir: racismo, vinculação a movimentos como a Ku Klux Klan, xenofobia etc. A campanha atual e as ambíguas posições do empresário abriram a Caixa de Pandora. 

Diante disso, há membros do partido que preferem perder a eleição presidencial a ter de lidar com a imprevisibilidade da presidência e dos grandes prejuízos que ela certamente deixará para a história do partido Republicano e para as eleições seguintes. No lado democrata, a lógica do menor prejuízo é emulada por Sanders. Para ele, é melhor subverter o sistema eleitoral, levando a disputa interna para ser decidida pelos superdelegados na convenção partidária, a admitir a vitória de Clinton e perder a presidência para Trump. 

Parece tudo muito claro, mas Bernie está apostando na polarização interna entre os democratas. No domingo, aprofundou o abismo ao reforçar o questionamento sobre a Fundação Clinton, a que acusa de ter recebido doações da família real saudita. 

“(...) sobre a Fundação Clinton, (você acha que) eu vejo problemas quando uma secretária de estado durante seu mandato e uma instituição comandada por seu marido arrecadam milhões de dólares de governos estrangeiros, governos que são ditaduras? Não há muitas liberdades civis ou direitos democráticos na Arábia Saudita. Lá não há muito respeito pela oposição ou pelos direitos dos homossexuais ou pelos direitos das mulheres. Eu tenho problemas com isso? Sim, eu tenho”, disse em entrevista reproduzida pelo New York Times

A estratégia de Bernie Sanders é esticar a corda internamente. Seu objetivo pode ser mesmo discutir os rumos da política, questionar o financiamento das campanhas e se apresentar como um novo tipo de político (já discuti isso por aqui em outros textos). No entanto, há um risco muito claro quando se analisa o retrato do momento. Quanto mais pesadas forem suas críticas a Hillary Clinton, maior a divisão interna no partido Democrata. Isso também pode ser aceitável, mas aí há um ponto de contradição no discurso; segundo o próprio Sanders, seu objetivo mais importante e urgente é impedir que Donald Trump vença as eleições gerais. 

Em caso da provável confirmação de Hillary Clinton  como candidata democrata, os votos de Sanders não migrariam automaticamente para a candidata. De acordo com pesquisa realizada pela Universidade Quinnipiac e divulgada pela CNN, não necessariamente todos os que apoiam a candidatura de Bernie Sanders dariam votos a Hillary Clinton nas eleições gerais. Segundo a pesquisa, 25% dos entrevistados não votariam na ex-secretária de Estado. 

Sanders está assumindo um risco. Ninguém sabe se fez este cálculo ou não, mas o aprofundamento da divisão interna pode enfraquecer a campanha de Hillary Clinton em seu embate com Donald Trump. Se Hillary for derrotada nas eleições gerais, talvez Sanders pode vir a ser cobrado internamente pelo partido. Ele poderá até refundar a política, mas terá de esperar quatro anos. E sob a presidência de Donald Trump.