Ataque terrorista em Orlando e o uso da “lógica” ocidental pelo EI

15 de Junho de 2016
Por Henry Galsky O atentado terrorista em Orlando, na Flórida, é mais um capítulo da tragédia desses tempos. Ao contrário das explicações que equivocadamente sustentam o choque cultural como um dos pilares de ataques deste tipo, a atuação de grupos como o Estado Islâmico (EI) e seu poder de atração estão profundamente enraizados no modo de vida contemporâneo global. 

Entre muitos aspectos, os atentados terroristas cometidos pelos chamados “lobos solitários” refletem uma sociedade que valoriza as celebridades. Mais ainda, a sociedade que adotou como parâmetro a valorização da intenção de repercussão, seja por meio do aplauso, das curtidas ou da ideia – equivocada – da busca pela espetacularização dos próprios atos. O Estado Islâmico não apenas entendeu esta lógica profundamente, mas é possível que seus membros sejam agentes nas duas pontas: manipulam as redes sociais e o vazio dos que se consideram irrelevantes e perseguem a qualquer custo a inserção neste mundo vazio da celebrização;  mas também os próprios terroristas são eles mesmos manipulados por esta lógica. Há neste ponto o processo de retroalimentação permanente entre a busca por mais seguidores, mais terroristas, mais vazios e mais atos que repercutam. 

A lógica listada acima dificulta a interrupção do ciclo de violência. Na sociedade de consumo e das celebridades, grupos como o Estado Islâmico sempre encontrarão interessados em espetacularizar a própria existência – para muitos, vazia de significados. É aqui também que reside uma das mais importantes diferenças entre o grupo e a al-Qaeda, a rede terrorista da qual o EI se separou e da qual se origina. Esta separação marca o nascimento do terrorismo da segunda metade do século 21. Os membros do EI e da própria al-Qaeda não são seres alheios ao restante dos fenômenos mundiais, mas profundamente inseridos no contexto em que vivem. Há entre eles a diferenciação mais ampla da mudança geracional. A vocação para usar as redes sociais e torná-la ferramenta fundamental para a propagação do fundamentalismo islâmico é inerente aos terroristas da geração Y. É impossível não levar este fator em consideração diante das evidências e do terrível uso que o EI faz da internet. 

Outro aspecto que favorece a multiplicação de atos como este é a facilidade de adesão. O porta-voz do Estado Islâmico, Abu Muhammad al Adnani, já repetiu que não é preciso “pedir autorização de ninguém (para cometer atos terroristas)”. Ou seja, para transformar uma vida “sem significado” num ato de barbárie chancelado pelo grupo terrorista mais conhecido no mundo basta a autodenominação como membro. Não é preciso cumprir etapas, participar de treinamentos ou se meter em algum recanto perdido no Oriente Médio, Ásia ou África. Basta a intenção, basta jurar fidelidade. Não há burocracias. Para dar significado a uma “vida vazia”  é suficiente realizar o ato. 

Esta lógica que seduz jovens deprimidos e/ou repletos de ódio no Ocidente encontra no acesso fácil – e legal – a um fuzil AR-15 a concretização de um projeto que, se não fosse por esta facilidade, talvez não passasse de um ressentimento sem maiores consequências.