Eleições municipais de 2016 concluem processo iniciado em junho de 2013

03 de Outubro de 2016
Por Henry Galsky Depois das grandes manifestações de junho de 2013, houve certa ansiedade em relação às eleições de 2014. Havia expectativa de que os protestos que tomaram as cidades brasileiras ecoariam nas urnas. Isso não aconteceu. Mas, como num efeito retardado, o voto e o não voto nas eleições municipais de 2016 me parecem não apenas um resultado desta onda que se iniciou em 2013, mas também um retrato da relação complicada que os brasileiros mantêm com a política. 

O diagnóstico mais relevante é o da insatisfação com a forma de prática política, marca que deu o tom das manifestações em 2013 depois que o Movimento Passe Livre (MPL) decidiu deixar as ruas. A difusa ideia de que os partidos não representavam os manifestantes (um precedente para lá de perigoso) pode ser interpretado como catalisador dos números de 2016. Em dez capitais, os votos brancos, nulos e as abstenções superaram os votos obtidos pelo primeiro colocado nas urnas. 

Na luta entre os partidos, a narrativa que derrubou a presidente Dilma Rousseff ainda obteve números expressivos, muito embora as eleições municipais não possam ser tratadas como referendo sobre o processo de impeachment/golpe. No entanto, os resultados mostram uma derrota significativa do PT e crescimento de PMDB e PSDB. É muito provável que o PT esteja pagando o preço pela grande exposição negativa na imprensa, enquanto PMDB e PSDB parecem ainda não terem sido responsabilizados pelo processo que interrompeu a continuidade democrática brasileira – o “tropeço na democracia” como definiu recentemente o ministro Ricardo Lewandowski. 

O PMDB chegou inclusive a obter crescimento. Em 2012, foram 1.015 prefeituras conquistadas pelo partido. Agora são pelo menos 1.027. O PSDB tinha 686 prefeituras em 2012. Agora chegou a 791. O PMDB cresceu até o momento 1,2%. O PSDB cresceu 15,3%. Se PMDB e PSDB dançam abraçados comemorando os resultados obtidos, o PT experimenta a dor de uma derrota anunciada pela operação Lava-Jato: em 2012, o partido conquistou 630 prefeituras. Agora foram apenas 256, reduzindo suas conquistas municipais em 59,4%. 

Se até este ano PT, PMDB e PSDB disputavam as primeiras colocações como os principais partidos brasileiros, 2016 confirma uma grande desvantagem do PT. Depois do fechamento das urnas no domingo, o partido passou a ocupar a décima colocação entre as siglas nacionais, ficando atrás do PTB. 

Depois de anos de trabalho intenso de exposição dos escândalos do PT e da minimização da corrupção de membros de PSDB e PMDB, 2016 aponta claramente que é chegado o momento de colher os frutos. E os resultados foram muito evidentes mostrando que o trabalho de bastidores e a aliança com diversos segmentos da sociedade e do empresariado alcançou o objetivo. A narrativa da corrupção exclusiva do PT se sobrepôs à narrativa da quebra de continuidade democrática recente simbolizada pelo processo de impeachment/golpe à presidente Dilma Rousseff. 

E, assim, o processo iniciado em 2013 se conclui eleitoralmente. Como um rio desviado, as manifestações que inicialmente questionavam o modelo de parceria entre o poder público e a iniciativa privada que concede benefícios demais às empresas enquanto entrega serviços de qualidade duvidosa aos cidadãos foram canalizadas para outra direção. Em apenas três anos, o trabalho árduo dos partidos que hoje compõem o governo Temer conseguiu aplicar um golpe capaz de reduzir significativamente o poder de alcance nacional do PT.