Resultados eleitorais no Brasil e suas conexões internacionais – parte II

10 de Outubro de 2016
Por Henry Galsky As manifestações brasileiras de junho de 2013 tinham como modelo o protesto da população da Turquia contra a decisão governamental de transformar o Gezi Park, em Istambul, num shopping center. No entanto, a contestação ao padrão de parceria que concede serviços públicos a empresas privadas (que entregam serviços de baixa qualidade à população) estava na origem das passeatas brasileiras. Este foi o foco – muito relacionado aos movimentos “Occupy” globais – até o momento em que houve uma guinada à direita. A queima de bandeiras de partidos políticos foi o sinal claro de que os brasileiros decidiram dar um novo significado às marchas populares nas ruas. 

A partir de junho de 2013, os brasileiros optaram por – a partir da corrupção da classe política – contestar não apenas os políticos, mas a própria política; mas é importante reforçar que não há democracia sem partidos políticos. 

Mas esta tampouco é uma originalidade brasileira. Os movimentos nacionalistas europeus encontraram um caminho de meio termo, a ideia de que eles podem refundar a própria política a partir de candidatos que, olha só, não são políticos. Na Europa, a base deste caminho está no nacionalismo de extrema-direita representado hoje por Nigel Farage (Partido Independente de Reino Unido e na foto ao lado de Trump), Marine Le Pen (Frente Nacional, da França), Viktor Orbán (primeiro-ministro húngaro), além de vitórias expressivas de candidatos com discursos similares na Finlândia, Dinamarca, Eslováquia, Grécia e Alemanha. 

O movimento de rejeição à política por aqui também bebe na fonte da candidatura de Donald Trump e sua ideia primária de que a política está viciada pelo jogo político e deve ser apropriada por quem sabe administrar e gerar empregos mas que, claro, não é político por não precisar da política para viver. Esta é narrativa vencedora de João Dória, em São Paulo. Esta é a ideia que Trump está tentando sustentar nos EUA. 

A expressiva vitória de PMDB e PSDB nas eleições municipais pode ser explicada pela rejeição à política e, claro, pelos escândalos financeiros colocados na conta do PT com ainda mais intensidade nos últimos dois anos. Para parcela considerável dos eleitores brasileiros, valeu a máxima de punir os partidos mais identificados ideologicamente com a esquerda. Com o PT nas cordas nos últimos dois anos, não foi difícil levá-lo a nocaute nas eleições. 

PMDB e PSDB foram beneficiados pela visão estreita de que, por serem partidos sem ideologias mais identificáveis pela massa de eleitores, não está alinhados politicamente como o PT está (segundo a interpretação pouco sofisticada de parte dos eleitores sobre o que seria a própria política). Este é apenas um lado que conta a história do desembarque desses movimentos internacionais no Brasil e como eles receberam novos significados pela população brasileira. 

O outro aspecto desta reação brasileira à política tradicional se apresentou nas eleições municipais com o voto de fortalecimento de candidatos e partidos comprometidos  em seu discurso, atuação e origem com a mudança do jogo político e da assertividade em relação a valores éticos. É diferente do voto em “não políticos” porque não se trata de rechaçar a política, mas fortalecer o comprometimento ético na própria política. 

Como comparativo internacional, este é o desdobramento das diversas manifestações com formato de “Occupy” que questionaram a busca de resultados eleitorais a qualquer custo e a relação muitas vezes promíscua entre as instituições públicas, os partidos e as empresas privadas. Por isso, esta visão é a que mais se aproxima às origens das manifestações de junho de 2013 e a suas demandas iniciais representadas principalmente pela atuação do Movimento Passe Livre (MPL). 

Na política internacional recente, entre seus principais representantes, o movimento dos Indignados, na Espanha, é um dos mais importantes desdobramentos do “Occupy” e hoje se transformou em partido, o Podemos. Na política tradicional, o senador Bernie Sanders, pré-candidato derrotado no partido Democrata americano, representa um símbolo da ideia de que é possível fazer política sem abrir mão de preceitos éticos – na verdade, tendo este pressuposto ético como a base sobre a qual o projeto político está estruturado. 

No Brasil, as eleições municipais de 2016 apresentam o fortalecimento do PSOl, partido que canaliza nacionalmente esses movimentos internacionais. A desilusão com o PT de parcela do eleitorado que tradicionalmente se identifica e vota na esquerda representa o principal pilar de apoio ao partido que teve conquistas importantes no país, apesar do pouco espaço televisivo – no Rio de Janeiro, emplacou Marcelo Freixo no segundo turno, derrotou o PMDB e se tornou a segunda bancada na câmara municipal. 

No meio do caminho de todo o cenário global – e surfando igualmente na onda de rejeição aos políticos – estão a Rede (que inclusive se desvencilhou do termo “partido”) e o Partido Novo, que se apresenta como a oportunidade de renovação do corpo político tradicional. No entanto, até este momento, nem Rede, nem Partido Novo conseguiram transformar em votação expressiva o apelo antenado à tendência internacional (e nacional) de rejeição aos políticos tradicionais.