O longo caminho para alcançar a vitória definitiva sobre o EI

18 de Outubro de 2016
Por Henry Galsky A queda de Mossul, no Iraque, é muito representativa. Certamente, na esteira dos acontecimentos posteriores à vitória da coalizão contra o Estado Islâmico (EI), haverá uma onda de otimismo. O fim do EI está próximo. Mas o fim do grupo – mesmo que ele venha a acontecer, algo absolutamente possível – é uma ideia vaga. 

Acabar com o EI significa exatamente o que? É matar a ideologia, seus membros, sua capacidade de mobilização, sua articulação midiática e estrutural na Europa? De toda essa lista, apenas o segundo item – matar seus membros – é o que mais se aproxima do concreto. No entanto, até isso é questionável considerando a sua improbabilidade.
 
A tentativa de acabar com um grupo terrorista – especialmente este cujo modo de operação envolve o uso dos meios de comunicação deste século com extrema habilidade – é tarefa complexa. Não vai acontecer de maneira simples, não será rápido ou banal. Derrotar o EI em Mossul é importante e representativo, mas não determina o fim do grupo, de seus membros e ideologia. 

O caminho para impedir o crescimento do EI e de suas ações depende de um grande concerto internacional. Inclusive do Ocidente. O EI se pretende um califado sunita de extensão global a ser estabelecido especialmente nos territórios onde a presença de governos islâmicos das mais variadas naturezas – e em épocas diferentes – deixou de existir pelas mais diversas razões. A inviabilidade deste projeto é evidente e já abordei o assunto em outros textos. 

No entanto, para além de seu projeto inexequível de longo prazo, o discurso do EI encontrou seguidores no Oriente Médio pela suposta proteção que o grupo poderia oferecer principalmente às populações sunitas que se consideraram não representadas por governos xiitas. Isso aconteceu particularmente no Iraque e na Síria – não por acaso os dois territórios onde o EI formou seu Estado pirata. 

Por sua vez, a formação de governos xiitas no Iraque – que optaram por revidar os anos de exclusão da ditadura sunita de Saddam Hussein – marginalizou a população sunita, entregando-a de bandeja ao discurso do EI. 

Especialmente no Iraque, a incapacidade inclusiva dos governos xiitas pós-Saddam Hussein está no centro da explicação sobre a consolidação e ampliação do poderio do EI no país. O mesmo vale para a Síria, onde a situação também pode ser explicada pela guerra civil e pela falência do Estado nacional.
  
Se o século 21 já apresenta lições claras, uma delas evidencia que Estados nacionais falidos se transformam em ambientes ideais para a proliferação do radicalismo. No Iraque e na Síria, o EI se consolidou em virtude dos vastos exemplos de falência estatal, vazio de poder e desequilíbrio na relação entre Estados fracos – ou inexistentes – e suas populações divididas por sectarismos religiosos históricos. Ainda, a divisão sectária entre sunitas e xiitas é neste século o principal ponto de aglutinação e repulsa na formação de alianças estratégicas no Oriente Médio. 

Portanto, diante deste cenário de complexidades, vencer o EI em Mossul está distante de representar o marco de reconquista definitivo contra o terrorismo sectário na região. Para superar o discurso fundamentalista é preciso desconstruir argumentos, reconstruir infraestrutura e incluir populações inteiras em Estados hoje falidos. E este é um trabalho de longo prazo.