Uma visão estratégica sobre a disputa por Mossul

25 de Outubro de 2016
Por Henry Galsky A ideia de que retomar a cidade de Mossul deve necessariamente significar o fim definitivo do Estado Islâmico (EI) é falácia. Não apenas por tudo o que abordei no último texto, mas pelas mais diversas complexidades envolvendo a visão do EI sobre suas próprias derrotas e também sobre as mais variadas expectativas estratégicas dos soldados que combatem o grupo. 

Na frente de batalha pela retomada de Mossul há cerca de 30 mil combatentes. A coalizão internacional está longe de apresentar discursos e interesses políticos uniformes. O exército que impõe as mais importantes baixas ao EI é formado por um empreendimento internacional de curdos (os guerrilheiros Peshmerga, na foto acima), milícias xiitas, parte do exército iraquiano e até soldados turcos, além do apoio americano.
 
Há evidentes posições contraditórias entre todos eles especialmente quanto às suas razões e, acima de tudo, quanto a seus objetivos fundamentais ao frear a expansão do EI. No meio disso, a população civil da cidade de Mossul – que teme tanto o EI quanto os xiitas adversários ao grupo terrorista, muitos deles, aliás, vinculados à Guarda Revolucionária Iraniana.
 
A disputa por Mossul e, em última instância, a luta mais ampla contra o EI, é, antes de tudo, uma disputa pelas novas fronteiras do Oriente Médio e pela nova configuração que irá emergir a partir do esfacelamento da Síria e do Iraque. No centro desta disputa não estão teorias da conspiração das mais diversas, mas o estabelecimento prático de ganhos em relação ao principal foco de tensão regional (que se acentuou ao longo do século 21): a busca por hegemonia empreendida pelo eixo de países e movimentos não-nacionais de sunitas e xiitas. 

O nascimento do próprio EI representa em boa medida a exacerbação das ambições sunitas diante da falência do Estado nacional iraquiano no pós-invasão americana de 2003. A aliança entre o governo de Bashar al-Assad, a milícia xiita Hezbollah e o Irã também deve ser entendida como parte desta lógica, mas sob o ponto de vista xiita. 

Resolver e redesenhar o mapa do Oriente Médio a partir deste conflito maior é tarefa das mais difíceis, principalmente pela indisposição à negociação entre as partes. Seja qual for o resultado da guerra atual – e sejam lá quais novos estados nacionais emergirão dos muitos escombros, especialmente da Síria – é improvável que não haja mais insatisfeitos. O ciclo de violência deverá permanecer como parte da paisagem regional.

Como o EI interpreta a derrota?

Diante disso tudo, em artigo no New York Times, o pesquisador Hassan Hassan, membro do Tahrir Institute for Middle East Policy, nos EUA, cita texto publicado pelo EI em sua newsletter Al-Naba (sim, o EI tem uma newsletter) onde fica claro o que os terroristas pensam a respeito de eventuais recuos territoriais. Abu Muhammad al-Adnani, porta-voz oficial do grupo e morto em agosto passado num ataque aéreo americano, lembra que o EI já teve de retroceder ao deserto e preparar um retorno entre 2007 e 2013.

O conceito de vitória definitiva é bastante ocidental. Além das questões geopolíticas, o combate permanente que o EI sustenta tem objetivo muito mais simbólico do que o pragmatismo de vitórias e derrotas militares. No mesmo texto (igualmente usado como fonte por Hassan Hassan), al-Adnani deixa claro que a existência do grupo não estará ameaçada mesmo se seus objetivos estratégicos palpáveis forem inviabilizados pela coalizão internacional:

“Eventos históricos mostram que os mujahedins (jihadistas) do Estado Islâmico impediram que os apóstatas tivessem um único dia de segurança e proteção”.
 
E aí, mesmo se a derrota estratégica for inevitável, o EI retornará às origens e passará a ser mais um grupo terrorista como qualquer outro, cujo propósito diário é a insegurança permanente de seus inimigos.