Eleições brasileiras: vitória da direita e equívocos da esquerda

03 de Novembro de 2016
Por Henry Galsky Agora que a poeira baixou, decidi escrever uma pequena análise sobre os resultados eleitorais no Brasil. Já havia feito isso no primeiro turno e decidi seguir o mesmo caminho neste momento em que vencedores e vencidos estão consolidados.

 O ponto fundamental ao fim deste processo é a inegável vitória da direita no Brasil. É possível olhar para esta realidade momentânea com muitas lentes e buscar as mais diversas explicações. No entanto, não se pode considerar esta situação como obra do acaso. 

A própria esquerda busca culpados, mas é impossível não realizar uma autocrítica séria a partir de números esmagadores.  A história é como um fio escondido num emaranhado. Quando puxado, às vezes é maior do que se pensava. É exatamente este o caso. 

Há evidentemente um plano maior, não uma teria da conspiração, mas uma situação que se descortina a cada dia para quem estiver minimamente atento. A Operação Lava Jato expôs principalmente o PT e o líder político mais emblemático da história brasileira recente. Nos últimos dois anos, Lula apanha todos os dias, membros do alto-escalão do partido são presos e a política de maneira ampla – e os partidos de esquerda, de forma seletiva – passaram a alvos prioritários do Judiciário e de parcela da imprensa. 

Em 2013, depois das manifestações de junho, havia grande ansiedade entre todos os políticos – não apenas os do PT e das legendas de esquerda – sobre como a população reagiria nas urnas no ano seguinte. Apesar de episódios de violência e da dimensão nacional dos protestos, as urnas em 2014 não mandaram recado uníssono. O PT e a esquerda dormiram tranquilos porque imaginaram que a chancela dos votos seria suficiente para manter o projeto de mudança social iniciado a partir da primeira eleição de Lula, em 2002. Como se sabe, não foi. 

Nem o PT, nem a esquerda souberam interpretar com rapidez a mudança na gênese das manifestações de 2013 e a apropriação da insatisfação popular pelos movimentos mais conservadores brasileiros. 

A direita foi muito mais sagaz. Não apenas surfou na onda dos muitos erros do PT e de suas alianças, como também ressaltou questões ideológicas. Para muitos brasileiros, ainda é tabu discutir assuntos relevantes nacionalmente (mas sem lastro prático em eleições municipais), como legalização das drogas e aborto, por exemplo – mas estendo também às questões que envolvem o papel das mulheres na sociedade (o que é muito contraditório, visto que as mulheres constituem a maior parcela da população). 

Nas eleições municipais de 2016 a direita se beneficiou de estratégias de sucesso: a exposição seletiva da corrupção do PT e a associação ideológica entre tabus e os partidos de esquerda. Isso sem falar no aspecto circunstancial da economia; a retração no consumo e o alto índice de desemprego foram creditados exclusivamente ao PT. Não apenas o PT, mas todos os partidos de esquerda apanharam em função destes elementos.

PMDB e PSDB obtiveram sucesso por entender e direcionar a insatisfação política para a esquerda. Aproveitando-se de inocência de parte do eleitorado (uma parcela dos eleitores vota na direita porque realmente se identifica com o pensamento liberal), as campanhas e mensagens da direita procuraram vincular a política à esquerda. Político seria quem tem ideologia e está disposto a mexer até nos valores mais caros ao cidadão tradicional (os temas tabus). Os membros de PSDB e PMDB não seriam exatamente políticos (porque supostamente não tem ideologia), mas, digamos, apenas “ótimos” administradores muito prestativos que se doam a melhorar a economia, os processos e a enxugar o Estado por meio de privatizações. 

Por mais que essa chuva de bondade e desinteresse soe contraditória, a verdade é que a narrativa colou. De certa forma, é um nó tático na esquerda neste momento brasileiro. Fazendo justiça, é importante dizer que este não é um fenômeno exclusivamente nacional, mas mundial. Daí as vitórias de candidatos conservadores na América Latina, na Europa e, bom, a campanha de Donald Trump, nos EUA. 

O erro da esquerda brasileira

O mea-culpa tem de ser feito principalmente porque, ao contrário do que gostaria Aécio Neves, o PT e a esquerda brasileira não irão acabar em função desta grande derrota. Os partidos de esquerda precisam entender essas eleições como uma mensagem. Especialmente em eleições municipais, é mais importante focar em questões práticas. Entendo que tenha sido complicado manter o foco, ainda mais vivendo o dia seguinte de um golpe, mas a estratégia da discussão da política nacional no pleito municipal não funcionou. 

Nacionalmente, há questões mais graves. Se durante todo este tempo o PT e os partidos de esquerda tivessem procedido com a reforma política – estabelecendo-a como prioritária –, talvez hoje pudéssemos nos orgulhar de um Congresso mais representativo (não este repleto de analfabetos políticos). 

Mas o PT preferiu acreditar que a felicidade consumista e a ascensão da classe C – novamente, pelo consumo – configuravam elementos suficientes para garantir o eleitorado. O investimento pesado em educação – apesar dos inegáveis avanços da área nos governos Lula e Dilma – já poderiam dar à população mais instrumentos de escolha política. Mas isso não foi feito. E aí as necessidades são tão urgentes e palpáveis que a população parece ter optado por responder de maneira afirmativa aos impulsos que tem recebido todos os dias.