O fim das aspirações internacionais brasileiras

08 de Novembro de 2016
Por Henry Galsky Na manhã do dia 17 de maio de 2010, o presidente Lula estava em Teerã. Naquele momento, o Brasil alcançaria, pela primeira vez, o protagonismo do palco mais valorizado da política internacional: o Oriente Médio. O mundo assistia com um misto de suspeita, espanto e até certa inveja ao anúncio do acordo sobre o programa nuclear iraniano – fruto de intensa e complexa negociação entre Brasil, Turquia e Irã. 

O ato era o ponto mais alto dos esforços que o governo brasileiro empreendia desde 2003 para alterar seu posicionamento histórico nas Relações Internacionais. Era chegado o momento de o país refletir em sua política externa o capital de resultados da última década: a descoberta do pré-sal em 2007, o combate à miséria e a liderança internacional nos debates em torno do assunto, a liderança do chamado eixo sul-sul, o crescimento econômico, a consolidação do Brics. 

Em comum a todas as medidas, a criação de um novo vetor econômico e político mundial que teria como consequência o reconhecimento do novo eixo, da liderança brasileira deste novo grupo, do papel do Estado brasileiro neste mundo multipolarizado e que culminaria, por fim, com a mudança mais desejada pelo Brasil: a reforma e o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. 

Lula deu peso à política externa brasileira. Dilma não deu a mesma importância. Mesmo assim, em julho de 2015, sob sua presidência, o Brasil e os outros membros do Brics deram início às operações do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), entidade financeira criada para viabilizar projetos nos países-membros e que nasceu impulsionada pela força do bloco: juntos, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul têm 40% da população mundial e 23% do PIB global. Não é pouco. 

O Brics é hoje uma instituição política que conta com um banco de desenvolvimento criado para representar uma alternativa não apenas a instituições financeiras, mas a agendas políticas distintas, como as representadas por Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial. É uma tentativa de alterar paradigmas importantes, como os que resultaram da Conferência de Breton Woods, em 1944, que estabeleceu o dólar – atrelado ao ouro – como referência monetária internacional. A conferência também criou justamente o Banco Mundial e o FMI. 

As aspirações internacionais brasileiras nos últimos 13 anos não foram modestas. E nem seus resultados. 

Deixar de negociar na parte de baixo da mesa e passar a ocupar lugar que reflita o potencial brasileiro é tão importante quanto a promoção de crescimento interno ou eventuais ajustes econômicos. O governo atual certamente não está comprometido com a sustentação das ambições internacionais dos dois governos de Lula e Dilma (muito embora Dilma claramente tenha se dedicado com menos entusiasmo ao projeto). 

Nestes meses subsequentes à ascensão do governo Temer, o distanciamento brasileiro da ambição de se tornar uma potência internacional alternativa num mundo de profundas transformações não tem sido objeto de análise. No entanto, está claro que este novo governo se satisfaz com o retorno do país a uma posição histórica de redução de aspirações internacionais como forma de reforçar antigas alianças que mantiveram o Brasil estagnado e alijado de sua potência no campo de política externa – a ponto de, inclusive, ter sido ultrapassado pelo México como liderança regional. 

Como as Relações Internacionais não estão no centro de qualquer debate – mesmo em momentos de polarização –, a tendência é que as conquistas sejam perdidas em curto prazo. A ideia de transformar o Brasil no líder de um eixo de poder alternativo está relegada ao passado próximo.  A partir de agora, o país deve voltar a seu papel de sempre, voando alto como uma galinha.