Brasil: para entender 2016 , 2017 e 2018, um pouco mais de 2013

13 de Dezembro de 2016
Por Henry Galsky O ponto-chave para se compreender os acontecimentos de 2016 no Brasil ainda reside no ano de 2013. Eu realmente insisto com esta visão porque acredito que os políticos brasileiros ainda não compreenderam as demandas das ruas. Ou melhor, compreenderam, mas preferem não se envolver seriamente nisso porque sabem que, se assim o fizerem, precisarão mudar a tal ponto que bem possivelmente deixarão seus cargos para todo o sempre. 

Repito que a principal demanda popular no estágio inicial das manifestações de 2013 – cujo protagonismo ainda pertencia ao Movimento Passe Livre (MPL) – era o questionamento ao modelo de parceria entre poder público e iniciativa privada que trocava recursos públicos por péssimos serviços concedidos pelas empresas privadas ao público. Este era e ainda é o modo de operação de setores importantes da sociedade, como o transporte público (cuja operação é concedida a empresas privadas), por exemplo. 

O foco inicial das manifestações de 2013 era este. Depois, de forma ardilosa, outros setores da sociedade se apropriaram do movimento canalizando-o em outro sentido. O propósito era a manutenção do sistema de maneira mais ampla e a interrupção do projeto de desenvolvimento e emancipação brasileiros. Como estratégia, funcionou parcialmente até agora. 

Três anos mais tarde, após a derrota nas eleições presidenciais de 2014, o impeachment da presidente Dilma Rousseff restabeleceu o controle político pelos alijados do poder desde o início do século 21. Este processo ainda está em curso, uma vez que, em 2017, o PSDB deverá conclui-lo. Michel Temer e sua turma terão existido – com o perdão do termo – como bois de piranha. O retorno do PSDB, e possivelmente de Fernando Henrique Cardoso, já virou lugar-comum e não surpreende a mais ninguém. 

O Brasil em 2017

Lembro-me da primeira entrevista de Temer ao Fantástico, logo quando assumiu o cargo presidencial. Ele foi claro ao dizer que, despreocupado com eleições em 2018, poderia pôr em prática medidas impopulares. Neste aspecto, está cumprindo a promessa. Mas, para azar dele, não imaginava que a impopularidade seria tamanha que não apenas desagradaria aos setores que compõem a base da pirâmide, mas a todos os seus extratos. 

O governo Temer é um desastre porque não conseguiu promover a retomada de crescimento econômico e estancar a crise.  Pelo contrário; há mais desempregados, a economia está estagnada e a cada dia há novas denúncias contra membros da cúpula presidencial. 

A ideia de que seria possível também interromper a Lava Jato não pôde ser colocada em prática. Um governo formado pelos membros da velha política não compreende os muitos mecanismos de articulação atuais. Para azar deles, a classe média não deixou de apoiar as investigações mesmo depois da queda de Dilma. Temer e sua turma acharam que baixar o dólar e o preço da gasolina seria suficiente para anestesiar esta parte da população. Não foi. E tampouco houve significativa redução da taxa de câmbio. A gasolina não para de subir. E a imprensa também se manteve vigilante, mesmo que seletivamente. Interromper a Lava Jato hoje é um projeto impensável. 

Em 2017, duas narrativas irão concorrer pelo protagonismo das disputas políticas no Brasil. Se em 2016 a ideia de que a corrupção foi inventada no PT justificou a derrubada de uma presidente sem qualquer prova concreta, no ano que vem haverá um aprofundamento da disputa entre Legislativo e Judiciário. O PSDB parece caminhar para cometer o mesmo erro do PMDB. Temer e sua turma estavam tão ansiosos para derrubar Dilma que se aliaram ao Judiciário a qualquer preço. Mas, depois de chegarem ao poder, passaram eles mesmos a alvos da Lava Jato. 

Resta saber se, quando o PSDB chegar ao poder, o Judiciário irá desistir da disputa com o Legislativo. Ou se a ideia é sobrepor-se a ele. Seja como for, ainda há um elemento não contemplado. A principal demanda de 2013 permanece insatisfeita. E, até o momento, a política tradicional não foi capaz de se debruçar seriamente sobre ela. Em 2018, pode ser que haja uma nova eleição presidencial. 

O próximo presidente – pelo menos aquele que supostamente será eleito pelo voto direto daqui a pouco mais de um ano e meio – pode vir a ser alguém capaz de se apresentar ao público como não comprometido à velha forma de se fazer política. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. E algo passou a ficar claro no Brasil: tudo pode mudar muito rapidamente – inclusive a ilusão sobre a estabilidade das instituições do país.