Por ora, o sistema parlamentarista conseguiu salvar a Holanda

16 de Março de 2017
Por Henry Galsky Como escrevi no texto anterior, o sistema parlamentarista protegeu a Holanda de ser governada pela extrema-direita. Há muitas formas de interpretação do resultado. Não será desta vez que Geert Wilders se tornará o primeiro-ministro, mas o crescimento de seu Partido da Liberdade (PVV) é inegável. E aí há influência clara deste grande processo de retroalimentação internacional da extrema-direita cada vez mais fortalecida na Europa a partir das conquistas graduais obtidas no continente e, de forma mais exacerbada, pela eleição de Donald Trump nos EUA. 

O PVV saltou de 15 assentos no parlamento holandês para 20, crescimento de 25% desde as eleições de 2012. Mesmo que a análise de resultado necessariamente precise levar este dado matemático em consideração, talvez a grande vitória da direita seja o estabelecimento – neste momento, inegável – de sua agenda política como parte integrante de qualquer processo de discussão, especialmente nos países ricos do hemisfério norte. 

Hoje, não há nenhuma disputa eleitoral isenta de polarização em torno de temas como identidade nacional, “pureza”, imigração e controle de fronteiras. Esta é a grande conquista de Wilders, mas também de Trump, Le Pen, Farage e de todos os símbolos e lideranças dos muitos espectros da direita internacional. 

A eleição holandesa foi importante porque é parte da análise de um quadro político muito recente. Ela nos ajudou a entender como as eleições europeias devem acontecer daqui para a frente. E aí retorno ao ponto inicial: o parlamentarismo se tornou fundamental neste momento. 

Na prática, o sistema foi responsável diretamente por evitar que a Holanda se tornasse mais um dos países comandados por lideranças de extrema-direita. A polarização favorece o extremismo, naturalmente. E o sistema parlamentarista funciona como uma aula de ioga obrigatória no meio de um octógono de MMA. Sem negociação, não há governo. Sem racionalidade, não há primeiro-ministro eleito. 

Esta é a tradução política mais eficaz para momentos históricos como este. No ambiente mais racional holandês – que desfavorece lideranças como Wilders –, o parlamento contará com 13 partidos políticos que tendem a isolar o PVV. Mesmo com seus significativos 20 assentos, o partido de Wilders estará sob relativo controle porque as demais 130 cadeiras serão ocupadas por legendas que o rejeitam. 

A preocupação fica por conta de disputas políticas que colocam dois candidatos frente a frente. Este será o caso no segundo turno das eleições francesas, por exemplo. Como os argumentos da extrema-direita não envolvem muitas camadas de discussão (nem seu público parece disposto a assimilar discussões e análises mais amplas), uma disputa no modo binário é tudo o que os candidatos deste movimento procuram. Foi o que aconteceu nos EUA e no referendo que resultou no Brexit. Quanto mais forte for o slogan e menos aprofundado o debate, melhor. O parlamentarismo é exatamente a antítese deste raciocínio. E por isso – e por ora – a Holanda se safou.