A possibilidade de novas eleições em Israel

23 de Março de 2017
Por Henry Galsky Israel entrou em estágio de alerta eleitoral a partir do momento em que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ameaçou desfazer a coalizão do governo e convocar novo pleito. Pode parecer estranho que a razão para este momento confuso não esteja diretamente relacionada às muitas complexidades geopolíticas regionais, mas a um impasse em torno da nova empresa estatal de comunicação, que é conhecida como Kan

A criação da Kan foi aprovada pelo próprio Netanyahu em 2014. No entanto, mudou de ideia há poucas semanas, supostamente após se encontrar com funcionários da Israel Broadcasting Authority (IBA), empresa pública a ser substituída pela Kan, e que serão demitidos durante este processo. A IBA é considerada pela sociedade israelense como custosa e cada vez mais irrelevante e a ideia de criar uma nova empresa pública de comunicação surgiu a partir desta percepção. 

Desde os anos 1990, Israel é um dos países que mais realizam eleições. Em média, a cada 2.8 anos os israelenses vão às urnas. Isso se deve à própria natureza do sistema parlamentarista e, claro, às questões regionais muito particulares. 
Se novas eleições forem convocadas – algo que desagrada em comum acordo a população e os parlamentares que podem encurtar seus mandatos –, Netanyahu irá pôr em prática uma espécie de referendo sobre a nova empresa de comunicação. 

É um exagero derrubar o governo por isso. Mas a medida pode estar relacionada à obsessão do primeiro-ministro com a atuação da imprensa israelense. Não é de hoje que ele trava uma batalha pessoal com os veículos locais, a maioria deles crítica ao governo. Netanyahu tem relação problemática com a imprensa e com empresários de comunicação. Especialmente com Arnon Mozes, proprietário do Yediot Aharonot, que já foi o principal jornal do país. O líder israelense tem certeza de que jornalistas e empresários locais sempre planejaram uma conspiração para derrubá-lo. 

Netanyahu acabou se aliando ao magnata americano Sheldon Adelson, proprietário de cassinos nos EUA e que, em Israel, opera o jornal gratuito Israel Hayom. Ao contrário dos veículos pagos, o diário costuma ser elogioso ao primeiro-ministro. 
No entanto, a polícia empreendeu investigação mostrando que o próprio Bibi teria tentado se aliar a seu inimigo histórico Arnon Mozes, prometendo se esforçar para impedir a circulação gratuita do suplemento de final de semana do Israel Hayom em troca de cobertura mais favorável por parte do Yediot Aharonot

E aí a ideia de convocar novas eleições começa a ser explicada de maneira mais objetiva. É possível que este seja um fato novo para adiar o prosseguimento das investigações contra o primeiro-ministro. Há rumores de que, em breve, a polícia israelense irá recomendar ao procurador-geral o indiciamento de Benjamin Netanyahu não apenas pelas relações escusas com a imprensa e seus proprietários, mas por uma série de episódios mal explicados de troca de favores com empresários. 

O que coloca o primeiro-ministro em rota de colisão com os parlamentares (inclusive com os que fazem parte da coalizão de governo) é o momento político e as sondagens eleitorais. Muitos podem perder suas cadeiras em caso de novas eleições. 
Pesquisa publicada pela Rádio 103 mostra que o partido Yesh Atid, de Yair Lapid (na foto ao lado de Netanyahu), pode ser o principal vencedor nas urnas. De acordo com o levantamento, a legenda passaria a ter 26 assentos no Knesset, o parlamento israelense, quatro cadeiras a mais do que próprio Likud de Netanyahu. Este cenário representa um crescimento muito significativo do Yesh Atid, que atualmente possui 11 representantes no Knesset. O Likud começaria a perder força, uma vez que reduziria sua participação no parlamento em oito parlamentares. 

Mas este não seria o fim de Bibi. E por isso ele está disposto a arriscar. Mesmo que o Likud se torne a segunda força, o processo de coalizão manteria o primeiro-ministro no cargo. É provável que Netanyahu obtenha mais de 50 parlamentares numa eventual nova coalizão, número improvável a Yair Lapid. 

Na prática, Netanyahu está disposto a arriscar o governo atual – e boa parte de seus aliados – em troca de seu objetivo de longo prazo: manter-se no cargo, mesmo num cenário onde todos os demais partidos do atual governo percam.