Para acabar com o legado ambiental de Obama, America First

31 de Março de 2017
Por Henry Galsky Donald Trump assinou nesta semana decretos que representam uma reviravolta (um retrocesso, para ser mais claro) na política ambiental americana e na forma como o país liderou as discussões sobre o aquecimento global durante o governo Obama. O atual presidente determinou que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) reelabore o seu Plano de Energia Limpa que pretendia restringir emissões de gás carbônico por usinas existentes – justamente as movidas a carvão. 

O carvão é um tema que aparece aqui no site desde a posse de Trump, em 20 de janeiro. É símbolo não apenas de uma era passada de combustíveis fósseis, mas também serviu como ilustração do olhar de Trump sobre o perfil de seu eleitorado mais fiel. 

Desde o primeiro dia de governo, tenho insistido na metáfora dos carvoeiros do estado do Tennessee como símbolo não apenas da vitória política do conservadorismo e da extrema-direita, mas também de como a administração americana hoje enxerga seu papel no mundo. Numa série de licenças poéticas, a Casa Branca passou a chamar o fim da política ambiental de Obama de “independência energética” e “nova revolução energética”. 

Durante os primeiros dias de Trump no cargo, insisti que as demandas dos carvoeiros do Tennessee explicavam com bastante propriedade o conceito de America First. O raciocínio é até bastante simplório: por que cortar os empregos no setor carvoeiro em nome de uma questão ambiental que tem impacto em todo o planeta? 

Se para muitas pessoas a resposta é óbvia, para Trump e seus eleitores a interpretação é completamente distinta: para eles, o aquecimento global representa um entreve ao crescimento econômico americano e à criação de empregos nos EUA. As premissas, portanto, justificam os decretos de Trump assinados nesta semana. 

Vale dizer que a ideia de crise permanente agrada muitíssimo a atual administração. Ela atua como ratificadora do raciocínio simplório que apresentei acima. Por mais que a eles faça sentido, o fato é que não apresenta qualquer conexão com a realidade. 

Como escrevi no texto em que analisei o legado de Barack Obama na política interna americana, os EUA não atravessam qualquer período de crise, muito pelo contrário. Depois de muito tempo – especialmente depois dos anos de crise econômica que quase levaram o país à bancarrota –, os EUA usufruem de taxa de desemprego quase inexistente (4,7%) e, graças em boa medida ao governo Obama, houve produção de novos e numerosos postos de trabalho por 75 meses consecutivos, dado inédito na história americana. Não por acaso, Barack Obama deixou a Casa Branca com aprovação de 60% da população. 

A independência que Trump menciona quando opta por retirar o país da liderança do processo de busca da solução para o aquecimento global nada mais é do que a licença permanente para burlar os dilemas morais que regem a política externa americana desde que os EUA emergiram como superpotência na segunda metade do século 20. Para Trump, questões éticas e morais correspondem apenas a uma espécie de fardo a impedir o verdadeiro crescimento econômico dos EUA. Mesmo que, neste momento, a crise pragmática de desemprego e ausência de crescimento não correspondam ao cenário real. 

Mas o presidente Trump age como empresário. Foi eleito em parte por isso. A assinatura dos decretos que retomam, entre outros, a geração de energia a partir do carvão é uma resposta ao eleitorado da América profunda. Como um bom negociador, o presidente dos EUA optou por premiar a qualquer custo seus principais investidores: os eleitores, os carvoeiros dos Tennessee. Mesmo que os atos do governo representem um enorme retrocesso para o restante do planeta, isso não faz a menor diferença. America First