Atentados na Rússia: Putin coleciona inimigos

04 de Abril de 2017
Por Henry Galsky De acordo com levantamento das forças de segurança russas, estima-se que 3,4 mil cidadãos do país tenham se unido ao Estado Islâmico e a outros grupos terroristas no Oriente Médio. Depois dos atentados em São Petersburgo, é natural que se procure o caminho mais evidente para explicar a realização dos ataques. Mas é importante deixar claro que, por mais óbvio que possa parecer, nenhuma hipótese pode ser descartada. 

Como de costume, já há uma série de teorias povoando o universo virtual, muitas delas conspiratórias. A gigantesca Rússia é um país de enormes complexidades e que exerce papel cada vez mais central na cena geopolítica dos dias de hoje graças a Vladimir Putin, líder controverso cuja personalidade e intenção se confundem com as ambições históricas russas. 

Entre todas as teorias circulando, ganha força a ideia de que o presidente Putin estaria por trás do ocorrido de forma a frear as ambições da oposição um ano antes das próximas eleições. Apesar de, como escrevi, não ser possível neste momento desconsiderar qualquer hipótese, é importante entender também a fragilidade desta argumentação. 

Putin ainda detém 80% de aprovação popular. Mesmo que o número fosse mentiroso, estamos falando de um poder estatal capaz de manipular a última eleição presidencial nos EUA. Que benefício Putin poderia obter ao mandar realizar os atentados em São Petersburgo? A oposição russa já é silenciada, os jornalistas independentes são mortos ou perseguidos, os políticos de oposição são envenenados. Putin não precisa de atentados para resolver uma situação que já está sob controle (mesmo com a manifestação considerável da semana passada sobre a qual escrevi por aqui). 

Em setembro de 2015, a Rússia entrou de vez na Guerra Civil Síria para segurar Bashar al-Assad no cargo. Mais do que isso, para sustentar as bases russas na Síria e remodelar o Oriente Médio ao lado de seus aliados (além de Assad, claro) Irã, Hezbollah e, depois de uma crise realmente grave, Turquia. A campanha na Síria é bandeira de Putin e representa a parte mais prática e relevante do sonho de renascimento da grande Rússia, projeto pessoal de Putin desde que se tornou o homem forte do país (e não deixou de ser) em 2000. 

Egresso da KGB, Putin é o pacificador, o arquiteto deste grande plano em execução. A ideia de que poderia realizar atentados contra a própria população (algo já feito pela FSB, sucessora da KGB, em 1999, importante dizer) não me parece fazer sentido. Não agora. Principalmente porque mesmo que os ataques enfraqueçam a oposição russa eles podem se voltar contra o próprio Putin. O raciocínio binário pode levar a população não a se aliar à oposição necessariamente, mas a exigir que Moscou abandone a luta na Síria. Afinal de contas, por que se expor a redesenhar o mapa do Oriente Médio se em nome deste projeto a insegurança passar a tomar conta das metrópoles russas?

Isso sem falar no prejuízo direto para os órgãos de segurança interna. Todo atentado terrorista é fruto de falha. Atentados em trens numa cidade grande caem necessariamente na conta do governo. As forças de segurança falharam e os terroristas obtiveram sucesso. É importante mencionar que o discurso local de Putin também justifica a atuação do país na Síria como forma de combater os terroristas antes que eles consigam chegar à Rússia. Tudo isso pode ser questionado a partir de agora, até porque Moscou prefere os fundamentalistas islâmicos russos deixando o país e se juntando ao EI na Síria a ter de conviver com esta perigosa proximidade. 

Possibilidade de mudança

Este assunto é um pouco esquecido diante de tantas mudanças internacionais, mas russos e chechenos travaram duas guerras nos anos 1990. A Chechênia só foi dominada pela Rússia em 2000, justamente o ano de ascensão política de Putin. 

Sete anos mais tarde, em 2007, o movimento separatista checheno passou a se autodenominar o Emirado do Cáucaso e realizou três grandes ataques contra a Rússia (2009, 10 e 11). Após a morte do líder do movimento, Doku Umarov, em 2013, muitos dos membros do grupo foram para a Síria, onde passaram a combater Putin no Oriente Médio. Para as forças de segurança russas, este é o melhor cenário, uma vez que imaginavam manter os terroristas chechenos distante do território russo. 

Se o Emirado do Cáucaso – em aliança com o Estado Islâmico – tiver sido capaz de atacar São Petersburgo, Putin precisará rever suas estratégias de defesa doméstica e também sua atuação no Oriente Médio. Por todos esses fatores, não considero que o presidente russo tenha qualquer benefício com os ataques desta segunda, muito pelo contrário; a imagem de homem forte que gosta de cultivar sai danificada.