Civis sírios estão definitivamente entregues à própria (falta de) sorte

06 de Abril de 2017
Por Henry Galsky Os novos ataques com armamento químico a civis na Síria são a principal evidência do fracasso da comunidade internacional em lidar com a crise humanitária do país. O que está acontecendo agora é um jogo de empurra onde ninguém quer ser responsável por esta tragédia humanitária. Na guerra de informação tão comum nas relações humanas dos dias atuais – e, claro, as relações internacionais são retrato de uma era – há dois principais polos de atuação: de um lado, a tentativa de se livrar da culpa; de outro, a negação dos fatos. 

As potências internacionais estão envolvidas nos dois lados. A postura oficial americana não é de negação, mas de repasse. Se em agosto de 2013 – quando os primeiros ataques com armamento químico foram registrados – Donald Trump criticava o então presidente Obama com a argumentação America First que hoje é a marca de seu governo (“Não ataque a Síria, conserte os EUA”, Trump escreveu em seu twitter há quatro anos), agora a postura é completamente diferente; o atual presidente quer colocar a tragédia atual na conta de Barack Obama. Declaração oficial na sequência da divulgação dos acontecimentos na Síria: “Estas ações hediondas (cometidas) pelo regime de Bashar al-Assad são consequência da fraqueza e indecisão do governo passado”. 

Como sempre costumo escrever, quem procura coerência certamente se frustra com a política. 

A ideia de Trump não é apenas evitar se comprometer com qualquer solução da crise síria (America First), nem se resume a culpar Barack Obama, adversário político ao qual Trump representa sua mais perfeita antítese no cenário americano. Esses elementos adornam a situação, mas compõem apenas parte do quadro mais amplo.

No realismo político levado ao extremo pela administração atual da Casa Branca, é importante também evitar entrar em choque com seu principal fiador, aquele que vai dividir ou até mesmo substituir os EUA no Oriente Médio e permitir que Washington dedique-se integralmente a seu projeto eleitoral (America First): Vladimir Putin, o líder admirado por Trump, patrocinador da vitória republicana nas eleições passadas e, sempre é importante deixar claro, o mais importante aliado de Bashar al-Assad. 

Colocar a tragédia do uso de armamento químico na conta de Obama é a única saída que permite a Trump reconhecer a evidente crise humanitária sem, ao mesmo tempo, causar qualquer atrito com o aliado Putin. Este é o ponto principal da postura adotada pelos EUA. 

Negando os fatos

Importante reconhecer que EUA, Grã-Bretanha e França ao menos tentaram aprovar no Conselho de Segurança da ONU uma resolução condenando os ataques. A Rússia, no entanto, considerou que o texto era anti-Síria (?) e baseado em informação falsa. A China argumentou que havia uma distorção da questão. Rússia e China são ainda mais extremas que Trump, que, por mais contraditório que seja, reconheceu a tragédia humanitária. 

Em agosto de 2013, quando os ataques de Assad com armamento químico contra os próprios civis sírios ficaram evidentes, o então presidente Obama e o eterno presidente Putin conseguiram chegar a um acordo frágil. O presidente sírio permitiu que inspetores internacionais auditassem e removessem o arsenal químico encontrado. Na época, esta foi a solução encontrada por Obama para evitar mais uma guerra liderada pelos EUA no Oriente Médio (depois dos fracassos de Afeganistão, Iraque e Líbia, em ordem cronológica). Ficou a sensação que o limite havia sido alcançado e dali em diante a situação seria resolvida por meio de um grande acordo internacional com todas as partes envolvidas na Síria. Deu tudo errado. 

Não apenas a Rússia conseguiu a manutenção cada vez mais irreversível de Assad, mas também está claro que a Síria conseguiu esconder armamento químico da inspeção dos agentes. Para azar de Obama e do restante da comunidade internacional, a situação no terreno hoje favorece a ampliação da tragédia humanitária, uma vez que está claro que Bashar al-Assad conta com a complacência e o apoio político de Rússia e China no Conselho de Segurança, além de apoio militar efetivo de Rússia, Irã e Hezbollah neste novo Oriente Médio. E, para completar, o cenário apresenta um mundo menos interessado em soluções multilaterais. Os eventos desta semana mandam a mensagem prática de que, de maneira ainda mais clara, os civis sírios não contam com nada nem ninguém além da própria (falta de) sorte.