Ataques americanos à Síria: como entender Donald Trump

07 de Abril de 2017
Por Henry Galsky Definitivamente, Donald Trump é um presidente imprevisível; os ataques promovidos pelos EUA à Síria contradizem não apenas sua campanha eleitoral, mas toda a atuação que teve até agora. E não apenas isso, representam uma guinada completa em seu discurso histórico (quando ainda era apenas um opositor aleatório a Barack Obama) e de membros de sua administração. Nikki Haley, embaixadora de Trump na ONU, disse na última quinta-feira que “a prioridade não é mais a retirada de Assad (do cargo)”. Rex Tillerson, secretário de Estado, disse que “o status de longo prazo do presidente Assad será decidido pelo povo sírio”. Pois é, fica complicado entender os rumos e diretrizes de Washington. 

No entanto, no meio a tantas contradições, há alguns pontos que ajudam na compreensão do que pode estar em curso neste momento ou na estratégia de longo prazo do governo Trump – se é que ela existe. 

Trump pôs na conta de Obama a responsabilidade pelos ataques com armamento químico de Bashar al-Assad. Disse que a fraqueza do governo anterior – de Obama – permitiu a Assad promover novos ataques, uma vez que, em 2013, o então presidente americano nada fez para conter o ditador sírio depois da constatação de uso de armamento químico contra civis. Trump sempre fez de questão de se distanciar de Obama, de deixar claro ao povo americano que ambos representam lados exatamente opostos em todos os aspectos do debate político e ideológico. 

Nesta semana, quando surgiu a informação de que Assad fez novamente uso de armamento químico, houve consenso mundial de que este era o limite. Não ficava claro se haveria punição, mas EUA, França e Grã-Bretanha tentaram aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU. China e Rússia se opuseram. Pela primeira vez, Trump se viu no lado oposto a seu patrocinador eleitoral Vladimir Putin. 

E aí restam algumas perguntas que, quando respondidas, irão esclarecer se há de fato uma nova posição na Casa Branca: Trump entrou em colisão retórica com Putin, tanto que acusou a Rússia de complacência e incompetência na Síria. Esta crise será aprofundada a partir de agora? Se isso acontecer, como Moscou irá interpretar um eventual rompimento com Washington? 
Tudo depende basicamente da decisão de Trump. Ao justificar os ataques à Síria, o presidente americano deu uma informação que, dependendo dos novos passos, pode esclarecer qual será a postura americana daqui por diante: “Nesta noite, ordenei um ataque militar à base aérea na Síria de onde partiu o ataque químico”, disse. 

O que Trump quis dizer nesta declaração é bastante objetivo; Bashar al-Assad foi punido especificamente pelos ataques com armamento químico a civis, não pela Guerra Civil na Síria, não pela maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. 

Isso pode levar a crer que a ideia seja estabelecer o limite da guerra na Síria. Se for este o caso, Trump não estaria assim tão distante de seu posicionamento de campanha, nem de sua diretriz máxima de America First – que tem como base de sustentação a crítica aos gastos internacionais americanos, inclusive em empreendimentos militares no Oriente Médio. 

Talvez a ideia de Trump tenha sido deixar ainda mais evidente que, ao contrário de Obama, ele age quando precisa estabelecer limites pontuais. Ainda no terreno especulativo, é possível que estes ataques a Assad representem o exercício de estabelecimento de fronteiras bastante claras, mas não necessariamente o início de uma nova ofensiva americana de longa duração. 

Se for este o caso, o presidente Trump terá obtido sucesso: além da aprovação de representantes importantes dos dois partidos (Democrata e Republicano) e de parte importante da comunidade internacional (ainda sob impacto emocional das imagens de crianças atingidas pelos ataques químicos), estrategicamente conseguirá manter as relações com os russos (mesmo apesar dos arranhões) – interessados na reorganização geopolítica de longo prazo do Oriente Médio e em seus interesses militares e políticos na Síria.