Irã, Rússia e Hezbollah jogam a bola de volta para Trump

10 de Abril de 2017
Por Henry Galsky De uma até então desconhecida “sala de operações conjuntas”, partiu um comunicado da milícia xiita libanesa Hezbollah após o ataque americano à base síria: “Os EUA cruzaram a linha vermelha e vamos responder a qualquer ato de agressão futuro de diversas maneiras”. O texto é vago, mas foi escrito para marcar posição. É importante porque admite a existência – que já se sabia – de um protocolo de atuação único entre Rússia, Irã e Hezbollah, os principais interessados na manutenção de Bashar al-Assad na presidência da Síria. 

O comunicado já responde a uma das questões principais que surgiram após o ataque americano: como a Rússia irá interpretar a ordem de Donald Trump?

Num mundo cada vez mais complexo, interligado e dinâmico, o esclarecimento veio rápido. A posição russa está clara: se Trump quiser prosseguir, enfrentará reações. 

Putin trabalha no Oriente Médio desde 2015 e se arriscou ao manipular as eleições americanas por um objetivo de longo prazo: redesenhar a região, fortalecendo seus aliados Irã e Hezbollah e, principalmente, deixando evidente que a prevalência americana acabou. Esta é a principal razão pela qual se empenhou pessoalmente na vitória de Trump. Se a ideia do presidente americano é mudar de lado, deverá encarar as consequências.

É aqui que reside a imprevisibilidade: Putin se expôs, teve sua estratégia descoberta por FBI e CIA, agentes russos foram expulsos dos EUA na sequência, mas nada disso importava a ele. Os mecanismos de análise são outros. Para o líder russo, a garantia de um aliado na Casa Branca (que graças a seu America First lhe daria ao menos quatro anos para aprofundar mudanças globais) compensava qualquer risco, qualquer exposição. Mas então, pouco mais de 70 dias depois de empossado, Trump pode ter mudado de ideia, postura inadmissível a seu principal patrocinador.

O termo “linha vermelha” empregado no comunicado não foi ocasional. É o mesmo que Barack Obama usou depois dos ataques químicos contra civis sírios em agosto de 2013.
Ao justificar o lançamento de mísseis contra a base síria, Donald Trump foi enigmático em certo sentido: “a ação tem como propósito acabar com o massacre e derramamento de sangue na Síria”, disse.
Ora, a Síria está em guerra civil há seis anos. Já há ao menos 470 mil mortos. Portanto, é possível afirmar que a ação de Trump realizada isoladamente não irá interromper o massacre e o derramamento de sangue.

E considerando a premissa acima há mais uma série de interpretações: ou Trump acreditava no poder ameaçador das forças militares americanas  de tal forma a ponto de imaginar que um ataque isolado já bastaria para interromper a guerra; ou ele imagina que agora irá liderar uma coalizão militar de potências ocidentais e monarquias do Golfo Pérsico (como a coalizão criada por Obama para combater o Estado Islâmico em 2014) para remover Assad do cargo (o que certamente provocaria um atrito militar com a Rússia e seus aliados, seguramente iniciando uma nova guerra mundial); ou este foi um ato isolado que não sinaliza qualquer estratégia americana de longo prazo.

E se a última hipótese for verdadeira, o governo americano precisará embalá-la num grande esforço de comunicação, algo como uma justificativa de que a ideia era simplesmente mostrar força, distanciar-se da inatividade da administração Obama deixando claro que Washington não irá tolerar o uso de armamento químico – a interpretação que dei ao ataque em meu último texto.

Mas precisará agir rápido, uma vez que, num mundo dinâmico, Rússia Síria e Irã já retomaram os ataques contra opositores ao regime de Assad e, claro, civis. Portanto, quanto mais o tempo passa e os mortos sírios se acumulam nas estatísticas, mais inócuo se torna o ataque de Trump à base área.

Para completar – e talvez o presidente americano ainda não tenha se dado conta disso –, a incapacidade deste ataque dos EUA em alterar um milímetro da realidade no solo sírio ainda reabilita parcialmente a doutrina internacional de Barack Obama, que não realizou ataques ao país mas defendia a remoção de Assad do cargo – vale lembrar que até semana passada a gestão Trump tendia a ser pragmática e assumir que Assad poderia permanecer à frente da Síria, mesma posição do governo russo. Não há dúvidas agora de que a Casa Branca precisará rever este discurso se ainda tiver como objetivo comunicar alguma coerência aos cidadãos americanos e sustentar a tese em torno do ataque. A bola agora está com Trump. A posição dos russos já é conhecida. É a vez do presidente americano fazer o próximo movimento.