Ataque à Síria: a teoria da ameaça dos EUA à Coreia do Norte

12 de Abril de 2017
Por Henry Galsky Existe uma narrativa em curso que ganha força a cada dia de que Trump teria ordenado o ataque à Síria como forma de ameaça ao programa nuclear norte-coreano. De acordo com esta teoria, a estratégia atual americana seria deixar evidente que a política externa do país considera seu poderio militar de maneira ainda mais assertiva como caminho para alcançar seus objetivos internacionais. Tudo isso faz realmente sentido, mas há alguns pontos que merecem análise mais aprofundada. 

O primeiro ponto é que esse grande corpo teórico que se forma em torno do ataque à Síria funciona como balizador estratégico à Casa Branca. Ou seja, atende aos anseios de Washington porque pode iniciar um processo de resolução parcial do problema grave de impasse entre Putin e Trump (pelo menos em relação a este aspecto específico); os presidentes e aliados se distanciaram depois dos últimos acontecimentos. Putin não engoliu a decisão de seu protegido de atacar um território que considera como sua área de atuação e, como sempre escrevo por aqui, base principal da estratégia russa na construção de um novo Oriente Médio.

Portanto, a narrativa que sustenta o ataque à Síria como recado americano à China e Coreia do Norte recoloca nos eixos em boa medida a aliança entre Trump e Putin. Ou melhor, inicia o processo de cura desta ferida. Como o episódio ainda é muito recente, a reaproximação entre EUA e Rússia pode não ser imediata, mas já não parece o cenário de terra arrasada de alguns dias atrás. 

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, encontrou-se com seu par russo em Moscou, Sergey Lavrov depois de tomar um chá de cadeira de um dia inteiro. Por mais que a versão oficial dê conta de um afastamento entre a cúpula de liderança dos dois países, acho que ainda há mais a se examinar. Mas este é assunto para um próximo texto. 

Sobre a tese de ameaça americana à dupla de países comunistas, algumas informações: a Coreia do Norte insiste em seu programa nuclear – e ainda com mais gravidade para os EUA – e no desenvolvimento de mísseis capazes de atingir o território americano. Os testes com esses armamentos vêm sendo levados adiante em sequência pelo regime de Kim Jong-Un e sofrem objeção pública chinesa desde fevereiro. 

Por mais que a China represente o principal parceiro comercial da Coreia do Norte (responde por mais de 90% do comércio com o país), os chineses são estratégicos e colocam seus interesses nacionais em primeiro lugar. Como escreve Charlie Campbell na revista Time, “se uma grande instabilidade causar o colapso do regime (da Coreia do Norte), levas de refugiados podem ser despejados na China. Pior, a Coreia do Sul, aliada dos EUA, poderia reivindicar toda a Península Coreana, apresentando a possibilidade de que tropas americanas sejam deslocadas para a fronteira com a China”, escreve. 

No final das contas, o cenário maior já apresenta poucas possibilidades à Coreia do Norte, inclusive em relação a seu principal e único aliado. 

Agora, após o ataque americano à Síria, o discurso de repasse de ameaça ao programa nuclear norte-coreano coube bem demais aos EUA, que inclusive já despacharam o porta-aviões de propulsão nuclear Carl Vinson (foto) para a Península Coreana. É claro que existe uma formação mais assertiva por parte dos EUA, mas não necessariamente este movimento obedece a um encadeamento prévio ou representa uma demonstração de grande astúcia e capacidade de construção de estratégia internacional por parte do governo Trump. Mas, como política tem mais a ver com percepção de fora para dentro do que com competência de análise, está valendo. Ponto para Trump.