A aliança entre Rússia e EUA

18 de Abril de 2017
Por Henry Galsky Bastou ao presidente Trump determinar o lançamento de algumas dezenas de mísseis Tomahawk sobre uma base aérea síria para o senso comum responder prontamente: a aliança entre o presidente americano e seu par e patrocinador russo está desfeita. Todas as suspeitas sobre o relacionamento entre o governo de Moscou e o alto-escalão de Trump deixam de existir com esta simplicidade. Nem o presidente americano imaginou que seria tão fácil.
 
Esta é uma das teorias que podem explicar o ataque americano à Síria. E não se trata de uma tese conspiratória, mas de uma análise bastante direta sobre os elementos disponíveis. A conta é fácil: Putin investiu capital político, recursos financeiros e tecnológicos para interferir nas eleições americanas. 

Oitenta dias depois de empossado, o presidente russo rompe com o apadrinhado após um ataque militar que, como escrevi em meu último texto, não alterou um milímetro da realidade no solo sírio. O ataque pode ter sido importante para estabelecer limites (se Assad não voltar a usar armamento químico, claro), foi um símbolo que funciona ao governo Trump como parte da ideia fixa de mostrar diferenças em relação a Barack Obama, mas não vai além disso. Pelo menos até agora. 

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson (foto), foi a Moscou. Levou um chá de cadeira público, mas no final se encontrou com Vladimir Putin. O presidente russo expressou seu descontentamento com Trump, disse que teve uma espécie de déjà-vu com março de 2003, quando os EUA invadiram o Iraque sem qualquer comprovação das armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Putin e Trump subiram os discursos simultaneamente. 

O pano de fundo disso tudo pode estar relacionado às investigações de autoridades federais americanas sobre a interferência russa durante as eleições presidenciais nos EUA. Lembrando que dois membros da alta cúpula do governo Trump já tiveram problemas sérios com isso: Michael T. Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a deixar o cargo depois de seus encontros com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak – considerado um espião de Putin por CIA e FBI. Jeff Sessions, Procurador Geral, também é alvo da mesma suspeita. 

Já escrevi sobre as relações de pessoas próximas a Trump – e que trabalharam durante a campanha – com a Rússia. Leia mais aqui

No final das contas, o rompimento com Moscou é uma necessidade. Num cenário de alta suspeição sobre membros do governo Trump é importante ao presidente americano reforçar que sua aliança com a Rússia não é automática. A ideia é baixar o tom das críticas e deixar em segundo plano a vigilância permanente sobre seus aliados mais próximos. Ao mesmo tempo, isso muda pouco nos planos da Rússia para o Oriente Médio. 

As questões que se apresentam a partir de agora podem apontar os próximos passos. Os russos querem manter suas posições na Síria (o porto de Tartus e seus ativos locais, a aliança com Irã e Hezbollah para alterar o equilíbrio de forças regional). Mas Assad pode ser dispensado em algum momento, especialmente porque este é o ativo menos relevante no cenário atual. 

A posição americana mudou. Antes pragmático, o governo Trump já discursa contra Bashar al-Assad. E este novo posicionamento abre espaço para novos caminhos. Se a ideia for manter a aliança com a Rússia (mesmo que menos explícita, algo em que acredito), Putin e Trump podem coordenar esforços para inaugurar uma nova Síria sem seu presidente. Assad é a parte mais fraca desta história e o segundo ataque com armamento químico foi um grave erro estratégico (isso sem mencionar as questões humanitárias mais óbvias). 

Mesmo que os russos ainda se mantenham firmes na negação do ataque por parte de Assad, já sabem que o ditador sírio está envolvido. E este é um aspecto que interessa à Rússia, até porque, quatro anos atrás, Putin e Obama alcançaram um acordo que obrigava Assad a se desfazer de seu arsenal químico. Agora está evidente que isso não aconteceu por completo. 

Não me surpreenderia se os russos se cansassem do presidente sírio e, de maneira pragmática, acabassem por ceder aos argumentos americanos. A conquista de Washington vale muito mais do que a aliança com um presidente que só se mantém no cargo graças aos esforços de Moscou, caso de Assad. 

Se isso acontecer, Trump terá conquistado uma grande vitória internacional. Uma vitória que Obama nunca alcançou. E Putin sabe que esta é uma moeda de troca importante para se ter na manga, principalmente porque o presidente Trump ainda mantém as sanções contra a Rússia em virtude da invasão à Crimeia, em 2014. Esses elementos – Assad e sanções – podem estar na mesa a partir agora. Resta saber como será o diálogo entre russos e americanos.