A política externa de Trump e a vitória de Erdogan na Turquia

20 de Abril de 2017
Por Henry Galsky Depois da manobra da Síria e da elevação do discurso sobre China e Coreia do Norte, já é possível entender com mais clareza as intenções internacionais de Donald Trump. Por mais estranho que possa parecer, há alguma coerência em seu posicionamento externo. Não se trata de uma ratificação a suas políticas, mas do entendimento de que, em meio a tantas medidas impactantes, existe uma linha de pensamento. 

Além de sua necessidade de posicionamento anti-Rússia em virtude das ameaças domésticas pelas relações muito profundas de membros do governo e da campanha com Moscou, Trump continua a seguir a lógica do público médio americano. Os carvoeiros do Tennessee – imagem real que usei como símbolo de seu eleitorado – continuam a apontar os caminhos da administração atual. 

Leia mais sobre os carvoeiros do Tennessee aqui

A chave para entender a amplificação desta lógica reside em dois pontos fundamentais: o primeiro aspecto é o cérebro empresarial do presidente americano. Por mais que projete imagem de inflexibilidade (o que muitas vezes é o que acontece mesmo), Donald Trump continua a negociar. A imagem que tem construído segue este raciocínio; o eleitorado é uma grande clientela. E por isso é preciso manter os clientes satisfeitos. 

O outro aspecto deriva deste, mas está concretizado e se origina a partir de um levantamento de maio de 2016 realizado pelo Pew Research Center, um dos mais importantes institutos de pesquisa dos EUA, e citado por Stephen Sestanovich, do Atlantic. O estudo apontava duas posições públicas que num primeiro momento soavam contraditórias: setenta por cento do eleitorado queriam que o presidente se concentrasse em assuntos domésticos, não em política externa (dado absolutamente normal e que seria obtido em qualquer país do mundo, não apenas nos EUA); a maioria dos entrevistados (independente do partido de filiação ou proximidade ideológica) afirmou estar favorável a adoção de medidas capazes de manter o país como a única superpotência militar do mundo. 

Este levantamento mostra a enorme capacidade de entendimento de Donald Trump de seu público doméstico. Para muita gente, o resultado mostra caminhos desconexos. O presidente americano conseguiu interpretar a pesquisa a ponto de ganhar as eleições (com o apoio da Rússia, sempre é importante lembrar) e iniciar um processo de mudança internacional: ao mesmo tempo em que se distancia do histórico de política externa americana do pós-guerra, constrói a imagem de que não abrirá mão do status militar conquistado até aqui. O público médio americano não queria apenas uma das possibilidades apresentadas pela pesquisa, mas todos os ganhos possíveis recuando nas despesas. 

O ataque à Síria e as ameaças à Coreia do Norte são medidas que ilustram de maneira bastante evidente o que escrevi. Na prática, funciona de maneira simples: manutenção de distância da comunidade internacional sem flexibilizar a posição de liderança. Para deixar isso claro, nada melhor que dar demonstrações de poderio militar. 

A vitória de Erdogan na Turquia

Considerando-se todos esses fatores, Trump expressa sua admiração por Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan, presidente turco que saiu vencedor de referendo altamente controverso que lhe deu ainda mais força interna e deve resultar na desistência do projeto de adesão à União Europeia (UE). O presidente americano conferiu legitimidade a Erdogan e foi o primeiro líder de uma potência global a telefonar para parabenizá-lo depois do anúncio da vitória (vitória questionada pela oposição e por mais de cem mil jornalistas e prisioneiros políticos). 

Como lembra Kim Sengupta, no Independent, as congratulações de Trump ocorreram na sequência de telefonemas de lideranças de Catar, Guiné e do grupo terrorista palestino Hamas. 

A virada de mesa na Turquia é contestada pela UE e pelas principais democracias liberais do Ocidente, os Estados nacionais dos quais o presidente americano quer se afastar conceitualmente em função de todos os argumentos que apresentei no texto: para Trump e seus eleitores, a política externa americana até aqui representa um acúmulo de gastos que ainda não foram e talvez jamais sejam recuperados. Esta é a visão internacional dos carvoeiros do Tennessee e, para manter a coerência, é preciso projetá-la em todas as áreas de trabalho da política internacional. 

Ao se aprofundar um pouco mais na análise sobre os resultados do referendo turco, é possível entender mais um aspecto em comum entre Trump e Erdogan. O presidente da Turquia foi derrotado nas duas maiores cidades do país: Istambul e a capital Ancara. Assim como o presidente americano, Erdogan ainda enfrenta resistência e oposição do eleitorado urbano de maior escolaridade. Em tempos de grande polarização, os carvoeiros do Tennessee também encontram seus pares e pontos de atrito no cenário internacional.