Na França, mais uma disputa pela construção da nova ordem mundial

25 de Abril de 2017
Por Henry Galsky As eleições francesas são fundamentais nesta grande disputa internacional pelo modo de se fazer política e pelas ambições domésticas de cada país. A chamada Aliança Atlântica jamais enfrentou um risco de dissolução tão iminente. Este e outros elementos estão em jogo durante o pleito francês. De um lado, a centralidade da União Europeia (UE) e da Otan; de outro, a ascensão da extrema-direita e seu potencial de romper com a ordem estabelecida no pós-guerra. 

Se algo já está claro depois do primeiro turno é que os franceses também embarcaram na tendência mundial de contestação política. Pela primeira vez desde a criação da Quinta República francesa em 1958, os partidos tradicionais de esquerda e direita ficaram de fora da disputa. Isso está longe de ser um fenômeno isolado francês, mas parte desta virada de jogo recente. Nos EUA, as duas figuras polarizadoras do cenário na última campanha presidencial foram Donald Trump e Bernie Sanders. Da mesma maneira, a França teve Marine Le Pen – que obteve quase oito milhões de votos – e Jean-Luc Mélenchon, candidato derrotado, mas que surgiu como fenômeno da esquerda e terminou em quarto lugar com 19,16% dos votos.
 
A Frente Nacional, de Le Pen, e a França Insubmissa, de Mélenchon, são dois lados da mesma moeda; a contestação da política tradicional, tendência que tem varrido a Europa e os EUA e que, na esteira da Lava-Jato, também deve encontrar espaço nas eleições brasileiras do ano que vem. É importante traçar este paralelo entre ambientes muito diversos, mas que apresentam denominadores comuns. Num mundo cada vez menos isolado, é impossível desconsiderar influências e retroalimentações. Isso sempre aconteceu, mas agora ocorre com mais rapidez e intensidade. 

Nas eleições francesas, o segundo turno apresenta o confronto direto entre ideias distintas. Emmanuel Macron, o favorito a vencer a disputa, não é exatamente um representante da velha política nem um símbolo de ruptura. Foi membro do Partido Socialista entre 2006 e 2009. Entre 2009 e 2016, foi independente. E, em 2016, fundou o Em Marcha!, legenda que carrega suas iniciais e se propõe a criar um modelo político novo – inclusive desassociado à divisão tradicional entre esquerda e direita. Apresenta-se como uma terceira via mais técnica e pragmática e menos ideológica. 

Este tipo de discurso não é exatamente novo. E meados dos anos 1990, o acadêmico britânico Anthony Giddens alimentou com o seu livro Para Além da Esquerda e da Direita movimentos de contestação à política tradicional. A chamada “terceira via” encontrou representantes importantes em todo o mundo, como Tony Blair, na Grã-Bretanha, Gerhard Schröeder, na Alemanha, Bill Clinton, nos EUA, e até Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. 

O que une todos os espectros políticos na França à candidatura de Macron é justamente Le Pen, representante da extrema-direita e deste movimento internacional que ganha força a cada conquista na política tradicional. A contradição é realmente um aspecto importante desta união de forças tão distintas; Donald Trump, nos EUA, Le Pen, na França, Nigel Farage, na Grã-Bretanha e Geert Wilders, na Holanda, apoiam-se mutuamente e tem como propósito reforçar políticas domésticas e de cunho nacionalista, encerrando a ordem política do pós-guerra. 

A cada nova eleição, fica evidente que a política tradicional está encerrando seu ciclo de protagonismo. O momento de contestação é um fato inegável. Resta saber, no entanto, exatamente o que irá substituí-la. A disputa francesa é símbolo de mais este confronto; de um lado, a nova ordem de extrema-direita que pretende resolver crises a partir do encerramento em torno de um ideal de retorno a uma pureza nacional imaginada; de outro, o reforço do multilateralismo e da crença nas democracias liberais. Mais uma vez, é isso que está em jogo. Se a França cair – o que não deve ocorrer, segundo as pesquisas –, a Alemanha será o último bastião da Europa forjada no pós-guerra.