Eleições na França: a Frente Nacional e os desafios da extrema direita mundial

02 de Maio de 2017
Por Henry Galsky
No próximo domingo, a França escolherá seu novo presidente. Enquanto Emmanuel Macron representa a chamada terceira via – movimento sobre o qual escrevi no texto de análise do resultado do primeiro turno –, a expectativa é de que sua adversária, Marine Le Pen, alcance, mesmo que derrotada, um recorde de votos para o partido de extrema direita Frente Nacional.

Apesar da possibilidade de 40% dos eleitores optarem pela candidatura Le Pen, a Frente Nacional também deve encarar alguns desafios importantes no dia seguinte da votação. E esses desafios podem ser reproduzidos a todos os partidos de extrema direita que passaram a assumir lugar de destaque nos principais palcos políticos mundiais nesta segunda década de século 21.

A Frente Nacional foi fundada por Jean-Marie Le Pen (pai de Marine na foto ao lado da filha) nos anos 1970. A legenda fazia muito barulho com suas bandeiras tradicionais: basicamente fascismo e antissemitismo (em todas as suas variações e teorias conspiratórias). Com plataforma simplória, obtinha resultados eleitorais limitados e parecia caminhar sem causar graves riscos à democracia francesa até que, em 2002, Jean-Marie chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, alcançando 4,8 milhões de votos e conquistando 16,9% do eleitorado.

Este parecia o limite da FN, até que Marine compreendeu que, para chegar a algum lugar, era preciso suavizar o discurso. O antissemitismo e o fascismo continuam a ser parte do DNA do partido, mas a candidata entendeu que, para conquistar eleitorado maior, era melhor fugir desses assuntos. E é isso o que vem fazendo. Ao ultrapassar a barreira dos cinco milhões de votos, prova que estava certa. Marine surfou na onda dos acontecimentos internacionais e nacionais: terrorismo, imigração, radicalismo islâmico, identidade nacional francesa. Deu as mãos aos pares do movimento nos EUA, Grã-Bretanha, Holanda, Hungria. A extrema direita europeia rejeita a integração do continente, mas seus representantes buscam legitimidade uns nos outros (a política é o lugar da incoerência mesmo).

Marine Le Pen teve de se reinventar com distância segura do pai e estabelecer um acordo tácito com seus eleitores tradicionais: o pragmatismo oferece mais oportunidades de vitória na política tradicional. O radicalismo ideológico costuma enfrentar dificuldades de aceitação e tende a não produzir resultados práticos. Pelo menos não nas democracias. Ou melhor, se a ideia é jogar o jogo e vencê-lo, é preciso passar um verniz mais aceitável, mesmo que seja apenas um disfarce temporário. Mas a verdade é que a Frente Nacional, a extrema direita mundial e a família Le Pen jamais estiveram tão próximas da vitória. O desafio é o que vem a seguir.

Depois da vitória ou da derrota, transformação

Este é um momento único e novo para candidatos da extrema direita. Nunca foi tão aceitável votar em representantes dos diversos partidos espalhados por Europa e EUA. Pode ser uma tendência internacional hoje, mas não se sabe ao certo quanto tempo ela irá durar e se este é um movimento de longo prazo ou se retrata apenas o descontentamento com a política e com desafios não respondidos pelos políticos tradicionais neste século.

A má notícia para candidatos a cargos executivos vitoriosos da extrema direita é que, ao assumir o papel de governo, a democracia exige flexibilidade, capacidade de negociação e diálogo com a oposição.

Boa parte do eleitorado que votou pela primeira vez na extrema direita se encaixa na categoria de insatisfeitos com a política tradicional. Portanto, talvez a extrema direita tenha um tiro único, já que não se sabe ao certo o que esses insatisfeitos exigem: a refundação da política, a criação de empregos, a construção de muros ou a reconstrução nacional completa (em todas as suas variáveis). É muito provável que no futuro próximo cidadãos insatisfeitos com o sistema se decepcionem com eventuais candidatos de extrema direita que venham a ser eleitos.

E a razão disso está no cerne da própria política: quanto mais extremo é o discurso, mais os eleitores creem em pacotes de promessas incompatíveis com o jogo político; em democracias consolidadas, nenhum candidato consegue refundar países e tomar medidas extremas sem enfrentar negociações duras e medidas de controle criadas para proteger a própria democracia.

E a partir disso tudo temos o dilema da extrema direita que se pretende governo em democracias consolidadas: caso flexibilize alguns de seus mantras ideológicos, esses movimentos conseguirão manter sua base eleitoral satisfeita? Se não flexibilizarem, serão capazes de governar e pôr em prática suas promessas históricas?

Retornando ao caso francês, tudo isso explica a decisão de Marine Le Pen de se afastar do discurso do pai. O grande desafio da Frente Nacional e da dinastia Le Pen não está em encarar mais uma de tantas derrotas, mas de encarar as múltiplas complexidades em caso de vitória. Para o movimento criado nos anos 1970 por Jean-Marie, é melhor continuar a perder nas urnas.