Trump, Putin e o novo Oriente Médio

04 de Maio de 2017
Por Henry Galsky E Trump está de volta ao Oriente Médio. E a parceria com a Rússia retorna aos trilhos. As duas notícias estão relacionadas. Ao receber o presidente palestino na Casa Branca, o presidente americano fez questão de tornar banal a possibilidade de um acordo de paz entre israelenses e palestino. Não porque ele julgue o assunto desimportante, mas porque acredita que agora – sob sua intermediação – será fácil alcançá-lo. 

Pois é. Após o encontro com Mahmoud Abbas (foto), Trump deixou evidente o que (e como) pensa sobre o impasse entre israelenses e palestinos. “Nós vamos fazer isso”, disse sobre a possibilidade de acordo. 

O secretário de imprensa do presidente americano, Sean Spicer, resumiu o olhar do patrão: “o estilo deste presidente é o de desenvolver um vínculo pessoal com os indivíduos”. Portanto, Trump imagina que todos os governos americanos falharam porque não se empenharam o bastante nem conseguiram desenvolver vínculo pessoal suficiente. Simples assim. 

Por ora, não é possível considerar este pensamento parte de uma estratégia clara, até porque, ao mesmo tempo em que sinaliza proximidade com as lideranças locais (muito embora Mahmoud Abbas esteja em baixa), o presidente americano também mandou um recado de distanciamento: “Farei o que for necessário para facilitar um acordo (...), mas eu seria um mediador, árbitro ou facilitador”. 

Trump não apenas se enxerga como um homem de negócios que ocupa o cargo político mais importante do mundo, mas volta a aplicar o raciocínio dos carvoeiros do Tennessee: questões internacionais não são prioridade. E mesmo a maior das prioridades dos governos americanos anteriores devem ser tratadas com algum distanciamento. Talvez como parte de sua prática de negociação. 

E aí retomamos a questão das relações com os russos. Após o pontual ataque à Síria, muita gente imaginou que o episódio poderia marcar um rompimento definitivo entre as administrações atuais de Washington e Moscou. Desde o primeiro momento, desconfiei desta possibilidade. Agora, Trump e Putin voltaram a se falar por telefone. E os ânimos estão mais calmos. Existe inclusive a possibilidade de um encontro pessoal durante o encontro do G-20, na Alemanha, nos dias 7 e 8 de julho. 

O fato é que o presidente americano já mandou um representante para Astana, capital do Cazaquistão, onde a Rússia promove negociações de cessar-fogo na Síria. Os grandes atores deste encontro, além da Rússia, são Turquia e Irã. O Irã já estava intimamente envolvido no empreendimento de redesenhar o Oriente Médio promovido por Vladimir Putin. A Turquia, cada vez mais propriedade de Recep Tayyip Erdogan, está se juntando ao clube. Um representante americano na conferência – cuja presença pode ser interpretada como uma chancela a este novo momento do Oriente Médio – é um fato novo muito relevante. 

E tudo isso poderia soar ainda mais estranho, já que é sempre importante lembrar que o FBI e o Congresso americano continuam a promover investigações sobre as relações entre a alta cúpula da campanha e do governo Trump e membros do governo russo. 

Não acredito que essas questões estejam dissociadas. Após o telefonema entre os presidentes americano e russo, Vladimir Putin disse ter obtido o apoio de Trump ao estabelecimento de zonas de segurança na Síria que inclusive interromperiam os bombardeios da própria Rússia. Se essas medidas forem de fato implementadas e alguma acomodação (e o fim, mesmo que provisório, da violência na Síria) for obtida, quem poderia questionar a produtividade e até a necessidade da parceria entre EUA e Rússia? Esses resultados práticos poderiam até constranger os críticos do governo Trump e das relações mal explicadas com os russos. 

Para completar, a ideia de Putin é que essas zonas de segurança sejam patrulhadas no solo por forças militares de Rússia, Turquia e Irã. Possivelmente com aval dos EUA. O conceito de um novo Oriente Médio sobre o qual trato com frequência por aqui caminha a passos largos para se tornar fato. 

E aí cabe uma análise rápida sobre esta grande reorganização regional, caso ela aconteça realmente: a Rússia passaria a contar com a chancela oficial americana, enfraquecendo as sanções ocidentais em função da invasão à Crimeia e se estabelecendo como o mais importante ator no Oriente Médio. 

Trump poderia ser alvo de críticas domésticas, mas poderia vender a situação como parte da solução para o fim da violência na Síria e ao mesmo tempo silenciaria os críticos de suas relações com Moscou apresentado resultados práticos. Além de tudo, mostraria ao próprio eleitorado que, ao contrário de Barack Obama, sua visão pragmática e a aproximação com os russos foram capazes de interromper a guerra na Síria sem arriscar a vida de soldados americanos e o orçamento do país. America First