Eleições na França: a vitória de Macron e a discussão que está por vir

08 de Maio de 2017
Por Henry Galsky Benoit Hamon, candidato socialista derrotado, resumiu com perfeição o voto no agora presidente eleito, Emmanuel Macron: a distinção entre adversário político e inimigo da República. Para a maioria do eleitorado francês que elegeu o jovem presidente, Le Pen era a inimiga da República a ser batida. E aí a situação está temporariamente resolvida, mas não pacificada. 

Este é o retrato do momento: o alto índice de desemprego entre os jovens (cerca de 25%) é um dos muitos desafios do novo presidente. A França e o restante da Europa atravessam uma época de reexame da própria identidade e de suas aspirações nacionais ao mesmo tempo em que se deparam com o lugar-comum da frustração dos cidadãos pela incapacidade da União Europeia em prover prosperidade generalizada. A derrota da extrema direita pode ser momentânea. Não me parece que o movimento esteja silenciado, muito pelo contrário. 

Marine Le Pen esticou demais a corda no debate com Macron. Ela imaginou – e agora se sabe que equivocadamente – que o sucesso no primeiro turno representava a chancela a todo o escopo ideológico da Frente Nacional. Errou na estratégia e, por isso, ao admitir a derrota para Macron, disse estar disposta a reconstruir o partido. 

O voto em Macron foi pragmático, como bem definiu Benoit Hamon. Nos próximos dias 11 e 18 de junho, as eleições legislativas irão determinar o quadro político real. São 577 cadeiras da Assembleia Nacional em disputa. Pesquisa da OpinionWay-SLPV apontava que o Em Marcha, partido criado pelo presidente Macron em abril de 2016, poderia conquistar até 286 assentos, praticamente a metade das vagas. 

Se isso acontecer, Macron negociará em posição favorável as medidas que quer aprovar. E, se seguir adiante com os projetos da chamada Terceira Via, poderá criar um impasse social, uma vez que uma das ambições do novo presidente é reformar a legislação trabalhista, aumentando a jornada de trabalho de 35 para 39 horas semanais e – o ponto que deve causar mais discussões e embates nas ruas – enfraquecer os sindicatos. A proposta é muito similar às medidas em trâmite no Congresso brasileiro, por sinal, estipulando que as negociações trabalhistas entre empresas e trabalhadores irão se sobrepor a discussões entre Estado e sindicatos. 

Tais medidas devem causar um tremendo impasse e uma grande polarização política na sociedade francesa. Inclusive, curiosamente neste caso, podendo aglutinar a Frente Nacional de Marine Le Pen e os partidos de esquerda, todos eles contrários às propostas de reformas trabalhistas de Macron. 

Neste aspecto, o presidente francês se apresenta como novidade ao se colocar acima do espectro político, distanciando-se das definições entre esquerda e direita. Tudo isso pode significar que, nos próximos quatro anos, a França irá passar por um processo de completa revisão política. Se a sociedade francesa se decepcionar com Macron e a disputa em torno da reforma trabalhista de fato se transformar no foco principal de polarização, as extremas esquerda e direita podem encontrar novos caminhos de crescimento já de olho nas eleições de 2022.