Emmanuel Macron, reformas e Caverna do Dragão

12 de Maio de 2017
Por Henry Galsky O resultado eleitoral na França é muito mais surpreendente do que ele aparenta. Emmanuel Macron jamais havia ocupado um cargo político executivo. O seu partido, que se pretende distante das divisões tradicionais entre esquerda e direita, foi fundado no ano passado. Agora, Macron foi eleito presidente e existe a possibilidade de o Em Marcha conquistar metade dos assentos na Assembleia Nacional francesa. 

Por mais que a Frente Nacional da família Le Pen tenha alcançado número recorde de votos, a novidade é Macron. O reduto político do nazismo e do antissemitismo já existe desde os anos 1970. Diferente mesmo é assistir aos dois principais partidos franceses serem derrotados por uma legenda criada há um ano e capitaneada por alguém que se define como a superação das amarras e definições entre esquerda e direita. 

Macron é um presidente que se pretende diretor de empresa. E quer realizar reformas tão impopulares como essas em curso no Brasil de hoje: flexibilização da legislação trabalhista, sobreposição de acordos firmados diretamente entre patrões e empregados, redução de gastos governamentais etc. 

É curioso notar que esta é a agenda conservadora no Brasil. Macron está embalado em novidade, juventude e na vitória sobre partidos tradicionais. Mas propor a revisão de direitos trabalhistas não é intrinsecamente novo como plataforma política. 

A grande análise sobre a chancela ao projeto do Em Marcha fica para as eleições legislativas de junho. A vitória sobre Le Pen na disputa presidencial tem mais a ver com o desenho Caverna do Dragão do que com as reformas trabalhistas. 

Nos anos 1980, a série mostrava um grupo de jovens que, depois de entrar no brinquedo Caverna do Dragão num parque de diversões, vai parar num mundo encantado. Lá, recebem armas para se defender do grande vilão local, o Vingador. 

A eleição presidencial francesa é análoga a esta situação, especialmente Eric, o personagem que ganha uma arma pragmática, um escudo mágico. Na eleição presidencial francesa, Eric era a própria sociedade; Macron, seu escudo; Le Pen e a Frente Nacional eram, bem, o Vingador. 

O debate começa agora e pode resultar em três caminhos: Macron obtém maioria absoluta na Assembleia Nacional e inicia suas reformas com a chancela da sociedade; Macron é derrotado amplamente por outro partido e passa a dividir poder num sistema que os franceses chamam de “coabitação”. A terceira opção é o Em Marcha não obter maioria e iniciar um processo de coalizão governamental com outros partidos. 

O problema disso tudo tem a ver com a intenção do eleitorado. Se a ideia era implodir o sistema político aplicando essa derrota aos partidos tradicionais, o projeto está concluído e bem-sucedido. A questão é que esta vitória de Macron implica na aprovação das mudanças trabalhistas. Um não existe sem o outro. A chance de equilibrar os dois é evitar que o Em Marcha obtenha vitória esmagadora na Assembleia Nacional.