Diferentes perspectivas sobre um acordo entre Israel e os países árabes do Golfo

16 de Maio de 2017
Por Henry Galsky Há um quadro que se forma no Oriente Médio capaz de consolidar o eixo de Estados sunitas e inclusive estabelecer relações formais com Israel. A cooperação entre os EUA e esses países sunitas, especialmente as monarquias do Golfo Pérsico, é antiga e vital para a política externa americana no Oriente Médio. E o desenvolvimento dessas relações em face aos muitos e novos desafios regionais caem neste momento como uma luva para as pretensões internacionais de Donald Trump. 

Ainda em busca de superar as esparsas conquistas do governo Barack Obama na região – e de expor suas conquistas em contraponto às do antecessor e rival –, o atual presidente americano parte em sua primeira viagem internacional focado em resultados práticos e rápidos. Trump irá participar da chamada Conferência Árabe, Islâmica e Americana na Arábia Saudita e, na sequência, viaja a Israel e aos territórios palestinos. 

A ideia é criar efeitos imediatos – mas que não irão resolver todas as questões complexas da disputa entre israelenses e palestinos – entre Israel e os Estados sunitas da região, especialmente os países árabes do Golfo Pérsico. A proposta já menciona o estabelecimento de linhas de telecomunicações entre os países, autorização para que aviões comerciais israelenses possam sobrevoar o espaço aéreo no Golfo e permissão para que empresários de Israel possam fazer negócios com parceiros árabes. A concretização deste projeto pode marcar o início de relações diplomáticas normalizadas entre as partes. 

Em troca disso, os árabes pedem que Israel congele a construção de assentamentos na Cisjordânia, relaxem restrições comerciais na Faixa de Gaza e inicie esforços para retomar o estagnado processo de paz com os palestinos. 
É uma oferta viável e sedutora. Mais para Donald Trump do que para Benjamin Netanyahu. 

Não há dúvidas de que o primeiro-ministro israelense teria grande interesse em formalizar relações com os países árabes. É bom para a economia do país, muito positivo para sua imagem de estadista e reforça a posição de Israel como parte da construção de um novo Oriente Médio. 

A aliança estratégica entre israelenses e os países sunitas do Golfo Pérsico já existe na prática de maneira silenciosa. Esta aliança pragmaticamente teme a assertividade do Irã e a ambição da República Islâmica xiita de conquistar a hegemonia na região. 

A assinatura de um amplo acordo entre Israel e os países árabes do Golfo é uma medida de contenção ao projeto iraniano. As demandas dos países do Golfo são bastante razoáveis e até mesmo produtivas a Israel. Quanto mais os palestinos perceberem que obtêm vantagens práticas a partir do processo político – especialmente quando capitaneado pelos países árabes do Golfo – mais distantes eles estarão do Irã. 

O problema disso tudo, no entanto, reside no sistema político israelense. Na medida em que o parlamentarismo reflete a sociedade com fidelidade, a ideia de congelamento das construções israelenses na Cisjordânia será objeto de debate e oposição, mesmo que minoritária. Os cerca de 420 mil judeus que vivem no território estão amplamente representados politicamente na coalizão que mantém o primeiro-ministro Netanyahu no cargo. É pouco provável que esta população enxergue positivamente o acordo com os árabes uma vez que ele afeta o aspecto que lhe é mais sensível. E aí existe a possibilidade real de que essas 420 mil pessoas emperrem o projeto – para azar dos outros oito milhões de israelenses. 

Na cola de Netanyahu está o seu ministro da Educação, membro da coalizão e rival político, Naftali Bennet. Grande defensor dos assentamentos dentro do governo de Israel, Bennet mira o cargo de primeiro-ministro. Se Benjamin Netanyahu sinalizar o congelamento das construções israelenses na Cisjordânia, seu rival político irá trabalhar ainda mais pesado para isolar o primeiro-ministro. O governo poderá cair e é possível que novas eleições sejam convocadas.
 
A situação de Benjamin Netanyahu não é confortável. Seu governo conta com uma coalizão que soma 61 deputados de um total de 120 cadeiras no Knesset, o parlamento israelense. Se os partidos que compõem a sua base entenderem que um acordo amplo com os países árabes não vale a pena – já que existe a demanda pelo congelamento dos assentamentos –, podem se retirar do governo. 

E talvez por todo este quadro a presença de Donald Trump na região passa a ser fundamental. Durante o governo Barack Obama, havia impasse flagrante entre a direita israelense e o então presidente americano. Agora, a partir da eleição de Trump, a direita israelense – que é governo – perdeu os argumentos para não cooperar com as iniciativas regionais dos EUA. Houve um total esvaziamento do discurso do próprio Netanyahu em relação à interação com a liderança americana. 

De certa maneira, este talvez seja o principal trunfo do próprio primeiro-ministro israelense para se manter no cargo. Se a sua coalizão decidir inviabilizar um projeto de pacificação comandado por um governo em Washington abertamente pró-israelense, que tipo de relação os partidos de direita do cenário político de Israel pretendem construir com os EUA?
 
Esta é a situação que se apresenta ao primeiro-ministro de Israel. Para Trump, é muito favorável. Se conseguir em apenas uma semana apresentar uma alternativa para movimentar positivamente o conflito árabe-israelense, poderá superar o rival Obama. E é por tudo isso que o presidente americano deve acabar por exercer pressão sobre o aliado israelense no encontro entre os dois líderes em Jerusalém.