Para Trump, uma crise nunca é o bastante

17 de Maio de 2017
Por Henry Galsky
Parece cada vez mais evidente o empenho do governo Trump em interromper as investigações sobre as relações entre membros da administração atual e a cúpula governamental russa. Já escrevi bastante sobre o assunto, inclusive a respeito de cada um dos acusados.

Jeff Sessions, o nome escolhido pelo presidente Trump para ocupar o cargo de procurador-geral (e supervisor do trabalho de investigação do FBI), teria discutido assuntos de interesse nacional com o embaixador russo em Washington e mentido ao Congresso quando questionado sobre o assunto. Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a se demitir depois que o Washington Post revelou a conversa entre ele e o embaixador russo sobre as sanções aplicadas pelos EUA a Moscou.

Tem sido difícil distanciar a atual administração da Casa Branca das acusações. Agora, o próprio presidente parece implicado de vez depois que novas denúncias dão conta de que ele teria pressionado o agora ex-diretor do FBI James Comey a interromper as investigações sobre Flynn, e por consequência sobre a campanha presidencial do presidente. Comey foi demitido por Trump na semana passada.

A pressão sobre o presidente tende a crescer cada vez mais. A cada revelação, novos indícios de que Donald Trump tem bastante interesse em manter segredo sobre seu relacionamento com a Rússia.

O problema para a Casa Branca é que as informações estão se acumulando e já há quem enxergue o quadro como tentativa de obstrução de Justiça – que pode acarretar na abertura de processo de impeachment.

A incapacidade de gestão do governo já começa a formar uma onda que inclui representantes Democratas e Republicanos. A ideia a partir das novas acusações contra membros do governo pode ser estabelecer um aparato de investigação independente para examinar as teorias em torno do relacionamento com a Rússia. Se isso acontecer, será muito difícil segurar Trump na presidência. Conspiração com um inimigo histórico dos EUA e obstrução de Justiça compõem um cenário difícil de ser revertido.

Ex-membros do setor de inteligência do país já manifestam abertamente desconfiança em relação ao governo atual. Casos do agora demitido James Comey – o principal fornecedor das acusações contra Trump – e de James Clapper, ex-diretor de Inteligência Nacional. Em entrevista à rede de notícias CNN, Clapper declarou que as instituições do país estão sob assalto.

Para completar, o presidente também teria repassado informações sigilosas obtidas pelo serviço de inteligência de Israel ao ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov (foto). Neste momento de redesenho do Oriente Médio – assunto que abordo com frequência por aqui –, repassar informações do serviço secreto de Israel aos russos é não reconhecer a configuração geopolítica regional. E ainda colocar em risco a vida de um agente secreto de um país aliado, uma vez que o espião israelense estaria atuando como infiltrado no Estado Islâmico. 

A Rússia é a principal interessada no fortalecimento de sua aliança estratégica no Oriente Médio. Os membros desta aliança são amplamente conhecidos: Bashar al-Assad, ainda presidente da Síria, cada vez mais a Turquia (interessada mais em combater os Curdos na Síria do que o Estado Islâmico), a milícia xiita libanesa Hezbollah (o exército de maior capacidade militar para combater Israel) e o Irã, o ator regional que aposta todas as suas fichas na reconstrução desta aliança regional e na parceria com os russos para pôr em prática seu projeto hegemônico.

Portanto, de maneira pragmática, Trump teria fornecido informações colhidas por membros dos serviços de inteligência de Israel a todos os atores acima. Definitivamente, não é algo banal. Principalmente, no momento em que se pretende mediador da retomada do processo de paz entre israelenses e palestinos e às vésperas de sua primeira viagem internacional – cujo destino é justamente o Oriente Médio.

Mais além, ao vazar informações sigilosas, Trump põe em risco as alianças americanas na obtenção de dados secretos, uma vez que deixa claro que trata este tipo de informação sem o devido cuidado.

No final das contas, o atual governo americano parece especializado na criação de crises e no fornecimento de elementos a seus críticos internos mais empenhados. Se a sociedade americana e seu corpo político entenderem que a situação atual coloca em xeque a posição estratégica, a segurança do país e de forças aliadas, o caminho para o processo de impeachment pode estar se pavimentando.