As surpresas de Trump no Oriente Médio

23 de Maio de 2017
Por Henry Galsky Em sua primeira viagem internacional como presidente, Donald Trump não deu qualquer margem de dúvidas para interpretações sobre sua visão de política internacional. De maneira bastante direta, ele elegeu um lado: os países sunitas, especialmente as monarquias do Golfo Pérsico. A ideia não era apenas retomar a velha política externa americana, mas deixar muito evidente o fim da Era Obama nas relações internacionais dos EUA. 

A visão de do ex-presidente americano Barack Obama e do ex-secretário de Estado John Kerry privilegiava a retomada de relações de longo prazo e investimento pesado dos organismos multilaterais. Foram esses os pilares que justificaram o acordo sobre o programa nuclear iraniano assinado em 2015. Trump se mostrou contrário ao acordo quando ainda não era candidato. Sua rivalidade histórica com a família Obama alimenta em boa medida a estratégia internacional do governo. Sem muita sofisticação, Trump imagina-se como um “demolidor”. Se Obama fez, ele irá desfazer. 

É claro que não se trata apenas disso, mas o histórico de oposição entre o presidente e o ex-presidente contribui decisivamente para as resoluções atuais. Trump também quer provar que Obama estava errado, tendo inclusive obtido pouco resultado no Oriente Médio, o palco mais importante das Relações Internacionais. Depois de dois mandatos, Obama conquistou a reabilitação parcial do Irã, mas não conseguiu qualquer progresso nas negociações de paz entre israelenses e palestinos e teve poucos ganhos na luta contra o Estado Islâmico (EI). Trump quer ir além, muito além. 

Em sua primeira viagem internacional, simbolicamente fez o primeiro voo direto entre Riad, na Arábia saudita, e Tel Aviv, em Israel. Por mais que as negociações entre israelenses e palestinos ainda estejam emperradas, o presidente americano e o primeiro-ministro de Israel costuram um acordo amplo entre o Estado judeu e os países árabes sunitas do Golfo Pérsico. Este acordo não resolve a questão entre israelenses e palestinos, mas contribui decisivamente na construção de um novo Oriente Médio. 

No centro deste acordo estão alguns pontos comuns; entre Trump e Benjamin Netanyahu, a rejeição a Barack Obama; entre Israel e os países árabes do Golfo, o grande interesse na contenção do projeto regional iraniano. Todos esses elementos convergem para a concretização deste pacto. Isso sem falar nas ambições pessoais do primeiro-ministro israelense. 

Político que ocupa o cargo durante mais tempo na história de Israel, Netanyahu quer chancelar seus anos como mandatário do país com um acordo amplo com os árabes capaz de elevá-lo ao patamar de grande estadista. Quer ser lembrado como um dirigente firme e pragmático, da mesma maneira como Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel que assinou o acordo de paz com o Egito em março de 1979. 

Ao mesmo tempo, Trump e Netanyahu continuarão a expor Barack Obama, uma liderança mais progressista que emergiu como fenômeno internacional, mas que teve pouca chance de sucesso no Oriente Médio. 

Na sequência da viagem de Trump, uma reviravolta na política externa americana. Existe a possibilidade de formação de uma espécie de “Otan” árabe. Apoiada pelos EUA e até mesmo discretamente por Israel, a cooperação poderia servir de base para contenção do Irã e do EI. A assinatura de um acordo comercial prevendo a compra de armamento americano pelos sauditas no valor de 110 bilhões de dólares pode estar diretamente relacionada a este projeto regional. 

Esta “Otan” árabe poderia iniciar uma retomada do Oriente Médio pelos americanos em oposição ao eixo xiita liderado pela Rússia. Esta medida seria efetiva no combate ao EI, o que poderia provocar um reconhecimento constrangido por parte das democracias liberais europeias e, ao mesmo tempo, pôr em dúvida a aliança entre o próprio presidente americano e seus correligionários com o governo de Vladimir Putin, uma vez que os EUA reafirmariam sua posição de liderança histórica regional.