Irã x Arábia Saudita: um retrato da disputa entre xiitas e sunitas

25 de Maio de 2017
Por Henry Galsky Comentei sobre o projeto regional iraniano. É importante deixar claro que os Estados nacionais procuram pôr em prática estratégias de reafirmação de interesses próprios no campo internacional. Esta não é uma particularidade do Irã, mas, na medida em que a República Islâmica é um dos principais atores regionais, é relevante entender as particularidades do confronto entre as duas principais potências muçulmanas do Oriente Médio: o próprio Irã e a Arábia Saudita. 

Arábia Saudita e Irã controlam, respectivamente, a segunda e a quarta maiores reservas de petróleo do mundo. Tenho o costume de evitar entrar neste assunto por considerá-lo uma armadilha que leva a lugares-comuns quando se trata de Oriente Médio. Mas mencionar esta informação permite compreender o início da aproximação ocidental com ambos os países. 

As administrações americanas mantinham relação próxima com Irã e Arábia Saudita até 1979, ano que marca uma virada no jogo regional a partir da Revolução Iraniana que alterou o sistema político do país. No lugar da monarquia autocrática comandada pelo xá Reza Pahlevi, o atual sistema que tem como autoridade máxima o aiatolá Ali Khamenei, oficialmente chamado de líder supremo da revolução islâmica do Irã. 

Em 1979, o aiatolá Khomeini iniciou o processo de mudança completa do sistema político que alterou não apenas os costumes e possibilidades de comportamento da sociedade iraniana, mas também as fidelidades internacionais do governo. As potências ocidentais de maneira mais ampla – e os EUA, particularmente – passaram a inimigas da República Islâmica em virtude da sustentação concedida à família real Pahlevi e à monarquia. 

A partir deste rompimento, as administrações americanas posteriores se aliaram mais intensamente ao pilar de sustentação que lhes restava, a Arábia Saudita. Esta pequena história que contei explica parcialmente a situação, mas é preciso lembrar também das diferenças étnico-religiosas entre sauditas e iranianos; enquanto os sauditas são árabes, a maioria dos iranianos é persa. Mais além, os dois países são representativos também em suas divergentes fidelidades religiosas. 

Enquanto o Irã é o maior país xiita do mundo, a Arábia Saudita é um dos principais atores do chamado eixo sunita. Além disso, os sauditas reivindicam a liderança político-religiosa entre os muçulmanos, em virtude, em parte, de os dois principais locais sagrados e de peregrinação islâmica no mundo estarem em seu território: Meca e Medina (foto). 

A rivalidade entre xiitas e sunitas é entrave muito relevante dentro do mundo muçulmano. E as divergências quanto à interpretação religiosa se ampliaram também para a geopolítica. Importante lembrar que os sunitas representam entre 85% e 90% de toda a comunidade muçulmana mundial. 

A disputa entre sunitas e xiitas está consolidada na realidade geopolítica do Oriente Médio. É muito difícil que este impasse termine e as distintas visões de mundo de ambas as correntes cheguem a um consenso. Irã e Arábia Saudita estão cada vez mais em rota de colisão, e os acontecimentos, disputas e acordos deste momento refletem em boa medida a situação. 

O príncipe Mohammed bin Salman, filho do rei Salman, da Arábia Saudita, deixou claro o que pensa a respeito dos movimentos internacionais do Irã. 

“Não vamos esperar até que a batalha ocorra na Arábia Saudita, mas vamos trabalhar para que ela aconteça no Irã”. 

Este é o tom da animosidade entre os dois países, que já estão em combates indiretos no que se convencionou chamar de “guerra por procuração”. Iraque, Barein, Iêmen e Síria são palcos da disputa interna entre sunitas e xiitas. Enquanto o Irã trabalha na sustentação de Bashar al-Assad na Síria e apoia milícias xiitas no Iêmen, no Barein e no Líbano, os sauditas estão fechados no eixo sunita apoiado pelos EUA e que teme principalmente o patrocínio iraniano a estes atores xiitas não-estatais, caso do Hezbollah, por exemplo. O eixo xiita é amparado pela Rússia e contava com oposição americana até a posse de Donald Trump.

Nesta recente visita do presidente dos EUA ao Oriente Médio assistimos ao reforço da política externa tradicional americana com amplo apoio aos atores estatais sunitas. Na medida em que isso acontece, é provável que o Irã se distancie ainda mais de qualquer possibilidade de aproximação com os EUA. Resta saber agora como esta injeção de armamentos americanos na Arábia Saudita e a declaração explícita de antítese ao regime iraniano irão influenciar esta oposição estabelecida entre sunitas e xiitas no Oriente Médio.