A Alemanha na liderança do mundo livre

30 de Maio de 2017
Por Henry Galsky Depois do encontro dos membros da Otan na semana passada, ficou decidido que os países devem demonstrar anualmente resultados financeiros capazes de provar que estão comprometidos em empenhar no mínimo 2% do PIB em gastos de defesa. Este compromisso é fruto basicamente da pressão do novo sócio do clube, o presidente Donald Trump. A Otan nasceu a partir da demanda americana no pós-guerra para conter a União Soviética durante a Guerra Fria. Agora, o presidente dos EUA caminha no sentido contrário, trabalhando para desmantelar a organização. 

Na campanha presidencial e nas repetidas citações de America First, Trump deixou claro que pretendia reduzir gastos internacionais. A Otan entrou como protagonista das críticas do então candidato sob o argumento de que os países da aliança transatlântica não pagavam o suficiente, deixando aos EUA a responsabilidade pelos maiores montantes em gastos de defesa. 

Seguindo esta lógica, Trump entrou acelerando no encontro do bloco, comprando inclusive uma briga direta com a Alemanha. No Twittter, ferramenta que o presidente americano usa com frequência para criticar adversários e gastar o número 1 (a tecla do ponto de exclamação), foi bastante direto com os alemães:

“A Alemanha deve grandes somas de dinheiro à Otan, e os EUA devem receber mais pela poderosa e muito custosa defesa que fornecem à Alemanha! ”. 

Naturalmente, o encontro com os europeus – e com a chanceler alemã, Angela Merkel – não foi exatamente amistoso. Trump esteve presente na cúpula da Otan como um cobrador que não apenas se encarrega de telefonar ao cliente, mas decide passar uns dias na casa dele discutindo o assunto. 

Gastos com defesa são assunto delicado na Alemanha, especialmente em função da Segunda Guerra Mundial. Mas a posição de Trump parece ter dado ainda mais força à discussão entre os políticos alemães. Merkel, que trabalhava em parceria com Barack Obama no fortalecimento das democracias liberais, está sozinha e precisa agora construir alianças, disputar as eleições de setembro em casa e responder ao presidente americano. Diante desses desafios, aparenta estar disposta a assumir novas posições. 

“O tempo em que podíamos depender completamente de outros chegou ao fim. Isso é o que pude experimentar nos últimos dias. Em função disso eu posso dizer apenas: nós, europeus, precisamos tomar o destino em nossas próprias mãos”. Foi o que a chanceler alemã disse no último domingo. Mais explícito impossível. 

Enquanto os EUA parecem obcecados em trabalhar a política externa sempre a partir do olhar de Vladimir Putin, os europeus estão entendendo o recado. Não apenas porque Trump espera receber somas (talvez retroativas) pelo investimento histórico americano na defesa europeia, mas porque está claro o que o presidente dos EUA pensa em relação à Otan. 

Quanto mais a Casa Branca deixar claro que considera inútil a aliança transatlântica, mais os europeus estarão empenhados em encontrar alternativas à forte pressão exercida por EUA e Rússia. Esta é uma movimentação internacional gigantesca e pode acabar recebendo resposta proporcional. 

Talvez as democracias liberais europeias decidam antecipadamente deixar a Otan e construir de maneira autônoma a própria aliança militar. E aí, em algum tempo, não seria surpresa perceber que os EUA poderão ser substituídos pela Alemanha na liderança do chamado mundo livre. Se os europeus de fato seguirem adiante com um projeto particular de defesa, a macroestrutura internacional terá um novo e relevante ator.