Acordo de Paris: Trump continua a isolar os EUA

02 de Junho de 2017
Por Henry Galsky Ao anunciar a saída dos EUA do Acordo de Paris, o presidente Donald Trump dá mais um passo rumo ao alijamento voluntário do país do protagonismo internacional. Esta é uma tendência que acompanha a campanha e o mandato do presidente americano. Não é novidade e a gestão da Casa Branca está cumprindo a diretriz estabelecida pelo seu ocupante atual. Romper com o acordo é parte de um processo maior iniciado por esta administração e que inclui a saída do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) logo no terceiro dia de governo, a ameaça de rompimento com o NAFTA – o acordo de livre comércio da América do Norte –, e o recente distanciamento da Otan. 

Enquanto todo este movimento acontece, o patrocinador comemora em Moscou. Quanto mais America First, mais Putin pode pôr em prática seu projeto de grande Rússia e se posicionar no cenário internacional de forma assertiva. 

Tenho sempre mencionado os carvoeiros do Tennessee como metáfora deste momento americano. Parte do eleitorado de Trump se sente desfavorecido pelas mudanças globais e, por consequência, pelo processo de harmonização ambiental do governo Obama entre as democracias liberais. O acordo de Paris é o principal símbolo da tentativa do ex-presidente de encontrar denominador comum entre os EUA e a comunidade global. Sua assinatura, em 2015, é um dos marcos da chamada boa liderança americana. 

O presidente Trump tem dado demonstrações sucessivas de que um dos fatores de sua gestão é mirar em Obama. Não como exemplo, obviamente, mas como antagonismo. Se Obama fez, irá desfazer. A diretriz é válida a todos os tratados internacionais. 

No longo prazo, as decisões executivas dos sucessivos presidentes americanos têm tornado a política externa do país imprevisível. Trump faz uso contínuo destas medidas como forma de não submeter decisões à avaliação do Congresso. Obama também fez isso. É provável que o próximo presidente siga o mesmo caminho. Isso representa um fator fundamental para o desequilíbrio na condução das ações e estratégias internacionais da maior potência mundial. 

E, ao mesmo tempo, abre brechas para o surgimento de novos atores capazes de alcançar protagonismo. Esta é a expectativa da Rússia, mas há também novas possibilidades entre as democracias liberais. Em meu último texto comentei sobre a ascensão de Angela Merkel na Europa. Junto a ela, o atual presidente francês, Emmanuel Macron. O novo líder do país parece estar realmente disposto a colocar a França novamente entre os protagonistas. Tanto que articulou com russos e chineses o compromisso com o Acordo de Paris. 

Macron e Merkel podem representar os principais entraves aos planos de Putin – que, ao contrário dos EUA, reafirmou o estabelecido no tratado contra o aquecimento global. É possível que a Rússia encare o assunto como mais uma oportunidade para se livrar das sanções recebidas depois da invasão à Crimeia, em 2014. Mas as lideranças de França e Alemanha podem sim iniciar um processo de revisão de seus papeis internacionais e considerar inclusive a reestruturação da Otan, por exemplo. 

O fato é que a decisão americana de deixar o Acordo de Paris está longe de ser apenas parte da política e dos assuntos internos dos EUA e deve mesmo causar um novo processo de rearranjo internacional. Por mais que Trump não se dê conta disso, ele pode entrar para a história. O que não necessariamente é positivo, neste caso.