Na esteira da visita de Trump, Arábia Saudita decide isolar o Catar

05 de Junho de 2017
Por Henry Galsky Arábia Saudita, Barein, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU) cortaram relações com o Catar. Acusam o país de apoiar o terrorismo e desestabilizar a região. O gesto, seguido também por Iêmen e Líbia, pode iniciar um tremor na configuração do chamado eixo sunita. Escrevi um longo texto após a visita de Donald Trump ao Oriente Médio em que expliquei as divergências entre xiitas e sunitas e como as diferentes interpretações religiosas acabaram por se consolidar também nas questões geopolíticas. 

A decisão capitaneada pela Arábia Saudita busca isolar o Catar. Não é a primeira vez. Em 2014, os sauditas foram seguidos por Barein e EAU na aplicação de sanções econômicas. Agora, A Arábia Saudita pode estar fazendo uso do grande acordo militar e da promessa de investimentos econômicos vultosos nos EUA como forma de acelerar em busca da liderança regional. O Catar é alvo por algumas razões – não apenas por uma delas, mas pelo conjunto. 

A primeira é que Arábia Saudita e Egito – duas das principais potências sunitas, mas que concorrem entre si – precisam isolar o Irã, a maior ameaça ao projeto sunita. O Catar abriga em seu território a Irmandade Muçulmana, grupo rival do general Al-Sissi no Egito e cujo líder o atual presidente retirou do cargo para assumir em seu lugar. 

A Arábia Saudita já está em combate indireto com o Irã, especialmente no Iêmen onde os países do Golfo sustentam o governo em sua guerra contra rebeles houthis xiitas apoiados pelos iranianos. A decisão de romper com o Catar isola o país inclusive fisicamente, uma vez que o país faz fronteira terrestre apenas com a Arábia Saudita. 

Teoricamente, algumas declarações do Emir catari, o xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, foram elogiosas ao Irã. Supostamente, Al-Thani teria dito que o país “é um grande Estado que contribui para a estabilidade regional”. O Emir nega e afirma que o site foi hackeado. Um dos sites onde a declaração teria sido publicada é justamente o da rede de notícias do Catar, a Al-Jazira. 

A informação está no centro do mundo e a geopolítica não considera este item acessório. A Al-Jazira é acusada pelos sauditas de espalhar a ideologia iraniana pelo mundo. Nem Irã, nem Catar e, ainda menos, a Arábia Saudita podem ser considerados exemplos democráticos e de liberdade de informação. Mas a Al-Jazira incomoda bastante, especialmente as monarquias do Golfo onde é sempre mais fácil encontrar petróleo do que jornalismo independente. 

No final das contas, a aliança que Trump firmou com as monarquias do Golfo parece ter preço alto. De maneira ainda preliminar, parece que os sauditas buscam estabelecer limites em troca do apoio na luta para conter as ambições regionais iranianas. Talvez exijam a inserção do Catar na lista de países patrocinadores do terrorismo, algo complicado em termos econômicos e militares aos americanos. É no Catar que se encontra a base aérea Americana de Al Udeid, onde trabalham e vivem cerca de 11 mil militares dos EUA. 

A política internacional também representa uma relação de troca. Os sauditas compraram 300 bilhões de dólares em armamento dos EUA. Agora querem a recompensa política. Isolar o Catar – que inclusive divide com o Irã o reservatório de gás offshore conhecido como North Field-South Pars (foto) – talvez seja uma espécie de prova de comprometimento exigida por Riad. Se os EUA querem formar uma aliança para combater os iranianos, que deixem claro que a Arábia Saudita tem a liberdade para estabelecer limites regionais.