Uma nova guerra no Golfo Pérsico

08 de Junho de 2017
Por Henry Galsky No momento em que os EUA anunciam o início de operações militares para retomar o controle da capital do Estado Islâmico, Raqqa, a Arábia Saudita aprofunda a crise com o Catar. E isso acontece menos de três semanas depois da visita do presidente Trump ao Oriente Médio. Este não é um resultado positivo aos americanos, por mais que a Casa Branca tuíte o contrário. 

Há rumores de possibilidade de invasão ao Catar por parte dos sauditas. A análise é de Ali Ahmed, do Instituto de Estudos do Golfo Pérsico, em matéria publicada no site Sputnik. Se isso realmente acontecer – e o Oriente Médio é o campo onde o improvável costuma virar realidade –, haverá retrocesso nos planos regionais elaborados por Washington. Se Trump deixou a Arábia Saudita tendo no horizonte a criação de uma “Otan” local para combater o terrorismo, este projeto pode sofrer revés por período indeterminado no caso de invasão ao Catar. 

Um conflito entre o Catar e as monarquias do Golfo apoiadas pelo Egito seria prejudicial sem nenhuma dúvida à configuração regional imaginada pelos EUA. E muito provavelmente incluiria outros atores. O Irã poderia se sentir estimulado a reforçar seu posicionamento e sair em defesa do Catar de forma a transformar o emirado em zona de influência entre as monarquias sunitas. 

Um eventual mergulho iraniano na Península Arábica poderia trazer para o conflito os demais aliados do eixo xiita: Rússia, Hezbollah e Hamas em enfrentamento direto com os países-membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). 

Algumas considerações: o Hamas não é um grupo terrorista xiita, mas sunita apoiado e financiado por Catar e Irã (os iranianos têm interesses profundos na manutenção de um braço militar na fronteira com Israel). A Síria não está mencionada acima propositadamente. Bashar al-Assad tem problemas suficientes para se manter no cargo e encara pesadíssima ofensiva interna. Por isso, pode ser que opte por ficar de fora deste eventual conflito – muito embora possivelmente acabe engolido por ele em algum momento dadas as suas proporções e implicações. 

Ao mesmo tempo, é provável que o eixo xiita acione o Hamas em Gaza, que iniciaria ataques contra Israel. A estratégia seria muito similar à adotada por Saddam Hussein na chamada Primeira Guerra do Golfo. Quando uma coalizão de países, inclusive árabes, se posicionou ao lado dos EUA, o ditador iraquiano optou por lançar mísseis scud contra Israel. A ideia era incluir o Estado judeu no conflito de forma a desestabilizar a coalizão, uma vez que seria improvável assumir que os países árabes lutassem ao lado dos israelenses. Na ocasião, Jerusalém se manteve de fora da ofensiva apesar dos ataques iraquianos.  

Outro aspecto é a potencialidade de danos causados por esta guerra que acabaria por envolver todos os principais atores estatais e não-estatais do Oriente Médio. A semana marca os cinquenta anos da Guerra dos Seis Dias, conflito que moldou a região de muitas formas. Em junho de 1967, Israel atacou preventivamente depois que exércitos árabes posicionaram milhares de tropas em suas fronteiras, o Egito expulsou as forças de paz da ONU e o então presidente Gamal Abdel Nasser fechou o estreito de Tiran à navegação israelense. 

Esses três itens foram responsáveis pela guerra que redesenhou a região. A situação atual guarda alguma semelhança com os eventos de 50 anos atrás, período em que não havia entes não-estatais e conflitos armados eram travados entre forças armadas uniformizadas e identificadas sob o olhar imaginário mas presente da Convenção de Genebra. 

A tensão está estabelecida e há movimentações militares em curso. A guerra se inicia a partir do primeiro passo de qualquer um dos envolvidos. Um conflito envolvendo todos os países e atores não-estatais na situação de desordem atual certamente teria consequências desastrosas.