A viagem secreta que quase iniciou um novo processo de paz entre israelenses e palestinos

13 de Junho de 2017
Por Henry Galsky O jornal israelense Haaretz revela com exclusividade uma operação recente que quase culminou com o início de um processo de paz realmente sério. De acordo com a publicação, em abril de 2016 o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o líder da oposição Isaac Herzog (foto) deixaram o país secretamente durante a noite num avião privado rumo ao Egito. Lá, encontraram-se com o presidente do país, general Abdel Fatah al-Sissi, e com outras lideranças árabes definidas por Herzog como “jamais vistas por qualquer israelense”. 

O envolvimento de figuras inéditas da região e o entendimento dessas lideranças árabes das nuances da política israelense (a ponto de compreender que Netanyahu não teria forças internas em sua coalizão para seguir adiante com compromissos) é claramente uma novidade no Oriente Médio. Muito embora essas negociações não tenham seguido adiante, há a possibilidade de interpretação de que existe um conjunto de forças locais para além das fronteiras israelenses que compreendem a centralidade da solução de dois Estados para o encerramento do conflito israelense-palestino.

Talvez o próprio Netanyahu tenha um desejo genuíno na construção de um plano de paz definitivo. Os documentos obtidos pelo Haaretz deixam evidente que ele imagina realizar este objetivo apesar de sua coalizão de governo, não com ela. E aí está consolidado um exemplo muito claro das contradições do parlamentarismo. É um sistema político de muitas entradas e saídas onde as ideologias e pragmatismos se encontram e se distanciam a todo o momento.

Para ser mais claro: Netanyahu é um político de direita sob todos os aspectos (em Israel esta divisão tem muita força e causa profundas cisões quando o assunto é o conflito com os palestinos). Mas Netanyahu sabe o que é preciso fazer – sob a ótica israelense – para alcançar um acordo. 

O líder de esquerda, Isaac Herzog, do partido União Sionista, explicitou as razões que impediram o progresso das negociações de abril de 2016:

“Eles faziam demandas a Israel: permissão para construções significativas nas cidades palestinas da Área C, congelamento de construções israelenses fora dos blocos de assentamentos, reconhecimento de vários elementos do plano de paz árabe e outros itens”, explicou.

Após os históricos Acordos de Olso de 1993, a Cisjordânia foi dividida em três principais áreas que seriam destinadas ao Estado Palestino à medida que a Autoridade Palestina (AP) desse passos concretos em direção ao apaziguamento com Israel: Área A; onde há total controle palestino. Área B; sob administração palestina, mas segurança israelense. Área C; a maior parte da Cisjordânia sob status “a ser negociado”. A área C corresponde a cerca de 60% da Cisjordânia. 

Em qualquer situação envolvendo um acordo definitivo a Cisjordânia será parte de um Estado palestino. A esquerda israelense sabe e concorda com isso. A sociedade israelense sabe disso. Parte concorda, parte discorda. A coalizão política que sustenta Netanyahu no cargo sabe, mas não concorda. Netanyahu é pragmático e sabe disso, mas não admite publicamente porque quer se manter como primeiro-ministro.  Esses são os dilemas principais em todos os seus espectros sociais e políticos em Israel. Não haverá qualquer acordo com os palestinos sem que esta complexa equação interna da sociedade israelense seja solucionada. 

A publicação dos documentos pelo Haaretz mostra, no entanto, que há um consenso regional quanto ao caminho de saída. Faltam líderes israelenses e palestinos com força interna para seguir adiante. A reportagem do jornal reabilita de certa maneira o líder de esquerda Isaac Herzog, que se envolveu pessoalmente nas negociações e fez questão de se encontrar com todas as partes. Talvez as revelações possam marcar o início de seu retorno político em busca da liderança do país.