A mudança de regime no Irã volta ao centro das discussões nos EUA

27 de Junho de 2017
Por Henry Galsky A grande disputa entre xiitas e sunitas no Oriente Médio é o principal agente de desestabilização regional, entre os vários fatores que causam a crise permanente nesta parte do planeta. O conflito já se moldou das mais distintas maneiras, mas agora existe um claro caminho de acirramento de hostilidades. 

Além da presença russa para manter seus pontos de apoio e se solidificar como a principal força da região, as diretrizes internacionais do governo Donald Trump, nos EUA, estão contribuindo para o agravamento das tensões e, possivelmente, a escalada rumo ao conflito entre as muitas forças atuantes. 

Tendo como norte permanente em sua estratégia a oposição ao antecessor Barack Obama, a administração atual da Casa Branca é um imã aos muitos atores internos da política americana que permaneceram à margem durante os oito anos de mandato do ex-presidente Democrata. 

O site norte-americano Politico obteve um dos relatórios encaminhados à Casa Branca. Preparado pela Foundation for the Defense of Democracies (FDD), um centro de análise privada de Washington, o texto estabelece que a política americana para o Oriente Médio deve priorizar a mudança de regime no Irã. O documento defende que o governo americano precisa fomentar agitação popular naquele país cujas ações culminariam, cedo ou tarde, na queda do regime clerical que comanda a política nacional. 

Não se sabe se o relatório passou ou passará a contribuir decisivamente para as diretrizes americanas no Oriente Médio, mas não custa lembrar que os EUA já fizeram isso no passado. Em 1953, a CIA apoiou um golpe que, no final das contas, acabou se mostrando um fiasco, uma vez que a interferência americana acabou por prover instrumentos retóricos para a construção do discurso e das ações da Revolução Iraniana de 1979 que culminou com a queda do xá Reza Pahlevi, aliado do ocidente, e com a tomada do poder justamente pelos clérigos que, desde então, comandam a República Islâmica. 

Há, portanto, um lastro histórico evidenciando que a interferência internacional não obteve sucesso na construção de um Irã democrático, muito pelo contrário. Hoje, num país que a muito custo – graças às diretrizes de Barack Obama, importante dizer – iniciou um processo muito lento e desconfiado de reaproximação com o ocidente, a ideia de que os EUA estariam novamente dispostos a participar de um processo de mudança de regime de fora para dentro tem chance nula de dar certo. A tendência é que a principal liderança do país, o aiatolá Ali Khamenei (na foto ao centro), use esta informação como forma de fechar ainda mais o Irã e, claro, silenciar as já enfraquecidas vozes de oposição interna. 

Isso sem falar que mesmo um ambiente de crise política e sublevação nacional não trariam quaisquer garantias de estabilidade doméstica ou regional em médio prazo. As crises recentes na Síria, na Líbia e no Iraque mostram que a desconstrução de Estados nacionais (mesmo os totalitários, praticamente regra no Oriente Médio) não resulta na construção de novos Estados nacionais organizados e democráticos, mas na criação de espaços de vazios de poder que passam a ser disputados pelos atores regionais contemporâneos – importante dizer, com a participação decisiva dos diversos grupos terroristas locais. 

A única explicação para uma eventual decisão americana de provocar instabilidade no Irã seria, portanto, a diretriz permanente de Trump de ainda disputar com seu antecessor. O discurso de campanha do então candidato Trump pretendia convencer o público interno (discurso que se mostrou vitorioso) de que empreitadas internacionais para mudar regimes e reconstruir países eram dispendiosas e injustificadas. Optar por fazer exatamente o oposto justamente num dos atores mais problemáticos do Oriente Médio acaba por ser o ápice da contradição teórica. 

No entanto, este movimento pode estar diretamente relacionado à primeira visita internacional do presidente Trump justamente ao Oriente Médio e, ainda mais circunstancial, ao reforço da aliança com os principais adversários do regime iraniano, as monarquias sunitas do Golfo Pérsico. É provável que este grupo de países tenha oferecido garantias ao presidente americano ou convencido-o quanto às ameaças estratégicas representadas por Teerã. A dúvida que se apresenta é a seguinte: o que acontece no dia seguinte ao início do processo de mudança do regime iraniano? E mais, assim como na Primeira Guerra Mundial, quais acordos secretos e que alianças irão ser colocados em prática a partir do início de um novo conflito regional?