As origens históricas da crise com o Catar

30 de Junho de 2017
Por Henry Galsky Na disputa atual no Oriente Médio – especialmente em relação à ruptura entre as monarquias sunitas e o Catar – é importante sempre ter em mente os temores e objetivos finais dos atores envolvidos. O grupo sunita comandado pela Arábia Saudita não apenas considera-se ameaçado pela parceria entre Catar e Irã, mas enxerga em algumas características do emirado – e suas ações no passado mais remoto e mais recente – fontes permanentes de preocupação. 

Num passado um pouco mais distante, a Arábia Saudita foi frustrada em sua tentativa de moldar os destinos do país, de certa forma. Em 1995, o xeque Hamad bin Khalifa Al Thani (emir do Catar até 2013) aplicou um golpe no próprio pai, o então emir Khalifa bin Hamad al-Thani. 

A Arábia Saudita percebeu no movimento uma ameaça à própria monarquia, imaginando que o golpe de Hamad poderia encorajar outros similares entre as demais monarquias do Golfo. Por isso, tentou apoiar o contragolpe do pai contra o filho. Não funcionou e Hamad bin Khalifa Al Thani permaneceu como emir até ceder o cargo ao filho, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, atual emir do Catar.

Num mundo hiperconectado e onde a vitória pelo discurso muitas vezes é mais eficiente do que pelas armas, a rede de notícia Al-Jazira é parte fundamental do arsenal catari. O canal de televisão, que alcançou fama internacional especialmente na esteira dos atentados de 11 de Setembro de 2001, representa um bem muito valioso do emirado. É, também por isso, considerado parte do instrumento da política externa de Doha. Principalmente porque o discurso diversificado apresentado no canal inclui a participação dos inimigos das monarquias regionais, como membros importantes do chamado eixo xiita: Hezbollah, Irmandade Muçulmana (que é um grupo sunita, mas de oposição ao governo egípcio), a Síria do ditador Bashar al-Assad e, claro, fontes oficiais iranianas. 

A ideia de jornalismo em si e, ainda mais perigosa, a prerrogativa de um canal de televisão que concede espaço aos mais diversos atores regionais representam, na prática, foco permanente de tensão com as demais monarquias do Golfo Pérsico. Isso sem me aprofundar – já feito no texto anterior que trata da crise com o Catar – na parceria econômica entre o emirado e o Irã a partir do campo de gás que exploram em conjunto. 

Em função de todos esses elementos, as monarquias do Golfo lideradas pela Arábia Saudita apresentaram uma lista de 13 pontos com os quais o Catar deverá se comprometer para que a crise seja encerrada. Lembrando que a situação representa também isolamento geográfico, uma vez que o Catar divide fronteira terrestre apenas com o território saudita. Entre as 13 exigências há, adivinhem só, a determinação do emirado de encerrar as atividades da Al-Jazira e romper todas as relações com o Irã e Irmandade Muçulmana. O Catar tem até o dia 3 de julho para responder. 

Não acredito que o emirado irá ceder às exigências, uma vez que, na prática, estaria abrindo mão de fontes importantes de recursos e, ao fim, da própria soberania. A determinação das monarquias do Golfo também estabelece que o Catar deverá se submeter a inspeções periódicas pelos próximos dez anos. 

Os EUA mantêm relações com os atores envolvidos nesta crise – pelo lado do eixo sunita. Inclusive tem uma base militar no Catar. Diante disso, Trump poderia trabalhar para acalmar os ânimos e dar prosseguimento ao processo de reintrodução iraniana na comunidade internacional. O gesto poderia restabelecer a liderança regional americana e evitar a evolução do conflito. Mas isso não irá acontecer, afinal de contas a tentativa de aproximação diplomática com os iranianos é herança do governo anterior. E a política externa da gestão atual tem como ponto de partida o rompimento definitivo com toda e qualquer iniciativa de Barack Obama.