No G20, Trump é cobrado por suas características mais marcantes

04 de Julho de 2017
Por Henry Galsky Ninguém espera mais o encontro do G20 do que o presidente americano, Donald Trump. Isso não necessariamente é positivo ao líder dos EUA, até porque ele chega à Alemanha pressionado por todos os demais participantes relevantes. Para piorar ainda mais sua gastrite, há a grande expectativa de uma aparição pública ao lado do presidente russo e seu patrocinador eleitoral, Vladimir Putin. Trump está colhendo os frutos públicos de suas promessas de campanha e de um início de mandato ao estilo pé-na-porta que lhe é particular. 

Em ambientes como o G20, as ideias do atual presidente americano são rechaçadas com muita força. Não apenas pelos manifestantes que acorrem a Hamburgo, onde o encontro é realizado, mas principalmente a partir das posições que os representantes oficiais das democracias ocidentais defendem. Isolacionismo e o rompimento com o Tratado de Paris (sobre clima e aquecimento global) são dois pilares da política de Trump que não encontram eco entre a maior parte das lideranças presentes. 

O presidente americano agora está ele mesmo isolado. Na política doméstica, membros dos dois partidos organizam no Senado novas sanções para punir a Rússia pela interferência nas eleições presidenciais do ano passado. A própria investigação sobre a relação entre membros da campanha presidencial de Trump e a alta cúpula de Moscou não morreu. O presidente ainda enfrenta uma grande polêmica com a imprensa e um índice de 36% de popularidade com os eleitores. 

Na Alemanha, irá encontrar os europeus que caminham para se unir contra as posições recentes de Washington. França e Alemanha – sob as lideranças de Emmanuel Macron e Angela Merkel, respectivamente – apontam para um divórcio dos americanos em função de Donald Trump. Merkel já deu o recado: 

“Qualquer um que acredite na solução dos problemas mundiais com isolacionismo e protecionismo está cometendo um grande engano”, disse Merkel. 

Em paralelo, Trump e Putin têm muitos assuntos a tratar num momento de péssimas relações entre Washington e Moscou (e da desconfiança nos EUA sobre a manipulação russa das eleições do ano passado). 

Mas Rússia e EUA têm mesmo muitas arestas a aparar: a crise na Síria, ciberterrorismo, Estado Islâmico, a crise no Golfo Pérsico, o desequilíbrio permanente no Oriente Médio. Um dos aspectos mais delicados tem a ver com a Crimeia, região ucraniana invadida por Moscou em 2014. 

A chance de Trump resolver todos esses assuntos e ainda agradar aos europeus é muito pequena. Os europeus esperam posicionamento a favor da Otan. Mas, se isso acontecer, os russos ficarão ainda mais contrariados. E sabe-se lá o que Putin faria a partir disso. Exporia Trump ainda mais? Vazaria por meio do WikiLeaks todas as informações sobre as eleições americanas de 2016? O ponto principal é que resolver todas essas pendências exigiria uma grande capacidade de articulação. 

O presidente americano não tem este perfil e hoje ocupa o cargo em boa parte por isso. Isolacionismo e protecionismo – termos que enfraquecem Trump no G20 – estão na origem de sua vitória doméstica. É impossível conciliar o sucesso eleitoral de 2016 com um mandato positivo na política externa. O encontro do G20 apenas expõe esta situação contraditória, o cobertor curto com o qual o presidente americano terá de conviver ao longo dos próximos quatro anos (situação que ele mesmo criou, apenas para deixar claro). 

Pé de página

Vai ser curioso ver a atuação internacional de Michel Temer. Se foi num encontro do G20 em 2009 que Lula virou “o cara” de Obama, a situação atual é completamente diferente. O Brasil não apenas se escondeu na política externa – e voltou a negociar debaixo da mesa, como de costume –, mas o cenário brasileiro é de difícil compreensão por parte das grandes lideranças globais. 

Há, no entanto, um constrangimento institucional permanente, já que está claro que o presidente brasileiro se cercou de um Congresso formado por investigados da Lava Jato para derrubar Dilma Rousseff. Em função disso, as principais lideranças globais preferem não emprestar prestígio ou estarem associadas ao presidente Temer. Ao contrário dos políticos brasileiros, os de fora temem o julgamento da História. Num mundo hiperconectado, não querem correr o risco de terem biografias pessoais manchadas por emprestar minimamente alguma legitimidade a um presidente que não tem nenhuma legitimidade interna.