Na crise da Coreia do Norte, os dilemas de EUA e China

06 de Julho de 2017
Por Henry Galsky Hoje, há uma situação muito específica na Ásia. No futebol, seria chamada de nó tático. Mas o termo esportivo é aplicado quando existe a vitória em campo de um time sobre o outro. O cenário atual na Ásia-Pacífico apresenta uma realidade muito particular e, por isso, distinta em relação a paralelos anteriores. Os dois principais atores da disputa enfrentam dilemas muito específicos, mas que no quadro amplo entram inevitavelmente em rota de colisão. 

China e EUA têm objetivos que se aproximam e que também se afastam completamente na crise com a Coreia do Norte. O objetivo de médio prazo chinês é a alteração da ordem regional, o que inevitavelmente implica no questionamento à histórica diretriz global norte-americana. A partir do comércio e do poderio militar, Beijing pretende consolidar seu poder hegemônico na Ásia-Pacífico, o que, por conceito, resulta na exclusão dos EUA. 

Os EUA, por seu lado e apesar do volumoso comércio mantido com a China, mantêm objetivos históricos globais: a liderança do comércio global, o que implica, naturalmente, no controle das rotas marítimas. Imaginar que Washington abriria mão da liderança nas principais rotas globais seria bastante ilusório. Importante sempre deixar claro que este é um daqueles aspectos que ultrapassam políticas partidárias. A liderança comercial e o controle dos mares são prioridades da política externa americana que independem de presidente ou partido a ocupar o Salão Oval.  Não se trata tampouco de conspiração, mas de uma linha de raciocínio que sustenta a posição de liderança militar, econômica e hegemônica global. 

Estão, portanto, explicados os principais pontos de afastamento entre Beijing e Washington na Ásia-Pacífico. No entanto, há um aspecto fundamental a unir os dois países. Nem EUA, nem a China imaginam a possibilidade de colapso da Coreia do Norte. Por razões diferentes, claro. 

Os EUA temem que Kim Jong-Un dispare seu míssil intercontinental, se estiver sob ameaça. Trump não pode sustentar seu America First iniciando um conflito regional com potencial global – para completar, os americanos ainda têm a memória da Guerra da Coreia (1950-53). Uma nova guerra envolvendo Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão e China colocaria diretamente sob ameaça populações que somam 1,2 bilhão de habitantes. Isso se desconsideramos a população americana (320 milhões de pessoas). 

A China teme que, a partir de eventual queda do regime norte-coreano, a Coreia do Sul reivindique toda a Península Coreana. Neste cenário, os sul-coreanos e seus aliados mais importantes, justamente os EUA, estariam finalmente posicionados na fronteira chinesa. Este é um ponto fundamental; a sobrevivência da Coreia do Norte e sua relação estratégica com a China derivam, entre outros, desta realidade ameaçadora aos chineses. 

A China responde por 90% das relações comerciais da Coreia do Norte. A chave para resolver o impasse nuclear de Pyongyang está num acerto pragmático entre americanos e chineses. O problema é que os dois países têm visões distintas sobre comércio global, hegemonia e a região Ásia-Pacífico. A situação é ainda mais complicada em virtude de Donald Trump, presidente que em menos de seis meses de mandato mostrou pouca habilidade diplomática. Considerando que a premissa de Trump é nunca mostrar fraqueza (e ele inclui flexibilidade em sua visão conceitual de fraqueza), a situação tende a se agravar.