Donald Trump e a morte do universalismo

12 de Julho de 2017
Por Henry Galsky Há setores da imprensa americana que estão esquecendo de fatos importantes ao analisar os caminhos que Donald Trump tem seguido em suas incursões internacionais. Há um ponto chave na estratégia externa do atual presidente e sobre o qual insisto por aqui: a oposição permanente a todas as determinações de Obama, o que agora é interpretado corretamente como a morte do universalismo promovido pelo presidente anterior. Até aqui, faz sentido. A análise mais comum sobre o atual ocupante da Casa Branca começa a perder lastro quando se inicia um juízo de valor (normalmente positivo) sobre os significados da presidência de Trump.

E aí considero importante citar alguns exemplos. Na National Review Magazine, revista fundada em 1955, o advogado e analista David French conclui que a Primavera Árabe recebeu interpretação equivocada pelo Ocidente porque a ideia do universalismo considera que os valores humanos são comuns às diferentes culturas, incluindo o que ele chama de “anseio pela liberdade”. 

“Pessoas inteligentes consideravam que emergia o ‘anseio pela liberdade’ em oposição à ambição pelo poder e sede de vingança. (...) a Primavera Árabe conduziu a Irmandade Muçulmana (ao poder) no Egito, o Estado Islâmico (ao poder) na Síria, e a uma guerra cruel na Líbia”, escreve. 

Listei aqui as conclusões de French porque elas resumem parte do pensamento atual da ala intelectual mais conservadora nos EUA e que é bastante representativa de parte da sociedade. Há conclusões corretas – a ruína de Estados nacionais tornou a situação em Egito, Líbia e Síria muito pior do que durante o período ditatorial nesses países –, mas, acima de tudo, um caminho que aponta equívocos de interpretação importantes. 

O ponto fundamental é a conclusão simplória e enganosa de que povos e culturas de determinadas regiões do planeta não anseiam por liberdade. Esta afirmação é perigosa porque atribui características inatas a grupos populacionais inteiros. E, ainda mais grave, conclui que o fracasso da Primavera Árabe constitui o destino manifesto do Oriente Médio. Além da simplificação, essas conclusões desconsideram fatos importantes que implicam as chamadas potências ocidentais nos acontecimentos recentes que culminaram no cenário atual. 

A avaliação de parte dos setores mais conservadores americanos simplesmente elimina o longo histórico de ditaduras no Oriente Médio e o apoio que receberam das potências ocidentais. A Primavera Árabe e suas consequências não podem ser examinadas sem que esses fatores sejam levados em conta. 

Um ponto fundamental é que nas sociedades sob ditadura no Oriente Médio não havia movimentos de oposição organizados constituídos pela sociedade civil. Se existiam, eram ignorados pelas democracias ocidentais. Décadas de ditaduras militares sufocaram qualquer tentativa de oposição. O caso específico da Irmandade Muçulmana representa a mais absoluta exceção. O grupo inclusive foi o primeiro a chegar ao poder após a queda de Hosni Mubarak justamente porque era o único movimento organizado e que permaneceu clandestino durante a ditadura de Mubarak. As análises precisam olhar a história como ela é, não como alguns grupos gostariam que fosse. 

As democracias liberais do Ocidente jamais tentaram entender o jogo político interno nesses países porque não precisaram. De forma pragmática, relacionavam-se com os ditadores (o que ainda acontece, caso por exemplo da relação com a Arábia Saudita). Quando as lideranças caíram no Egito e na Líbia, não havia nenhuma rede de contato disponível, o que também contribuiu para o fracasso da Primavera Árabe nesses países.

Este caminho interpretativo – que ignora todos esses acontecimentos – procura dar significado à política externa de Donald Trump, como se a oposição entre os dois presidentes americanos mais recentes criasse uma espécie de vantagem ideológica ao atual ocupante da Casa Branca. O que existe no momento é o desmonte da estratégia internacional promovida por Obama. A morte do universalismo é a consequência mais evidente da política externa de Donald Trump, mas a estratégia do atual presidente deve provocar outros resultados que ainda são desconhecidos.