Mohammed Dahlan pode ser o novo nome de consenso na política palestina

19 de Julho de 2017
Por Henry Galsky As peças no tabuleiro do Oriente Médio são movidas de acordo com a temperatura política local. A luta de algumas dessas peças não necessariamente é por movimentação, mas por permanência. Este é o jogo, por exemplo, do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Também é a preocupação do grupo terrorista palestino Hamas. Em 2007, na esteira de uma vitória nas urnas em eleições parlamentares palestinas, o Hamas tomou a Faixa de Gaza do Fatah, grupo ao qual pertence o presidente palestino, Mahmoud Abbas. A guerra entre os dois grupos rivais dividiu a luta maior palestina, a pelo estabelecimento de seu Estado. Hoje, na prática, há duas entidades distintas – e semiautônomas – sob as quais vivem os palestinos, uma em Gaza (sob controle do Hamas) e outra na Cisjordânia (sob controle do Fatah, facção que determina os rumos da Autoridade Palestina, AP). 

Esta realidade não apenas impede a consolidação dos planos nacionais palestinos, mas também cria uma condição muito frágil à população comum. A disputa entre os rivais Hamas e Fatah vitima hoje diretamente os palestinos de Gaza, que sofrem com cortes no fornecimento de energia porque o presidente Mahmoud Abbas decidiu parar de pagar pela eletricidade de forma a estrangular o governo do Hamas. A manobra política expressa um desejo de vingança pelos acontecimentos dos últimos dez anos, mas também as ambições de Israel, dos EUA e – agora cada vez mais claro – das monarquias sunitas do Golfo Pérsico, que decidiram acelerar nas pretensões regionais, como se vê no caso da crise entre esses países e o Catar. 

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, fez uma análise muito simplória deste cenário, esquecendo-se do ponto principal: o sacrifício pesa diretamente sobre seus compatriotas palestinos – que no inverno rigoroso sofreram com a crise energética provocada pelo governo palestino baseado na Cisjordânia e, se o impasse permanecer, continuarão a sofrer também no verão. No Oriente Médio, crises de abastecimento podem se transformar em confrontos regionais, especialmente quando o governo de Gaza é controlado pelo Hamas. 

Abbas está correndo para retomar Gaza do Hamas, imaginando que os palestinos da faixa costeira irão afundar a legitimidade do grupo terrorista local, abrindo caminho para a retomada do território pelo Fatah. A verdade é que o Hamas está enfraquecido pelo isolamento regional, em função diretamente da crise no Catar – fornecedor e garantidor financeiro do grupo – e das perspectivas alteradas pela luta contra o Estado Islâmico. 

Se antes havia uma espécie de abraço ideológico permanente e disponível aos palestinos, existe neste momento um olhar mais pragmático. Os países do Golfo consideram o projeto regional iraniano uma ameaça gravíssima às sobrevivências das monarquias sunitas. Por isso também encaram a adesão russa ao lado dos iranianos na luta pela manutenção de Bashar al-Assad na Síria como uma aliança cada vez mais perigosa. 

A busca hegemônica do Irã conta agora com a parceria da Rússia estabelecida no Oriente Médio. E Putin parece ter comprado uma passagem apenas de ida para a Síria, ainda mais no momento em que a Casa Branca é ocupada por um presidente que no discurso está focado na política doméstica americana. De forma pragmática, as monarquias do Golfo estão separando os atores regionais. E o Hamas caiu na conta do Catar. E do Irã. 

Por análise de experiências anteriores, Abbas fez uma leitura simplória (mas não totalmente equivocada) sobre os passos seguintes. Enforcar Gaza levará o Hamas a uma nova guerra contra Israel – que, por sua vez, enfraquecerá ainda mais o Hamas. No entanto, Israel não parece interessado num novo e custoso (sob todos os aspectos) conflito em Gaza. Por isso, vejam só, negocia diretamente com o Hamas uma troca de prisioneiros. A ideia não é fortalecer o Hamas, mas dar algo em troca ao grupo. Nas circunstâncias atuais, a troca de prisioneiros amenizaria o cenário em Gaza, mantendo a legitimidade do Hamas e adiando um novo conflito. O que Mahmoud Abbas não levou em consideração foi justamente uma peça distante deste tabuleiro. Ela atende pelo nome de Mohammed Dahlan (foto), ex-membro do Fatah, ex-inimigo do Hamas e que lutou na guerra entre os dois grupos pelo controle de Gaza, em 2007. 

Dahlan era o responsável pelo aparato de segurança em Gaza pelo Fatah. Em 2011, foi expulso da facção sob alegação de corrupção. Hoje, vive no exílio nos Emirados Árabes Unidos, onde desenvolveu laços de amizade importantes com os príncipes locais, entre eles o saudita Mohammed Bin Salman, e com membros relevantes da aliança sunita, entre eles o presidente egípcio, o general Abdel Fatah al-Sissi. Dahlan continua a ser odiado pelo Hamas, mas pode surgir como parte de um acordo maior justamente porque é um dos herdeiros políticos do líder Yasser Arafat e, portanto, rival direto do atual presidente palestino Mahmoud Abbas. 

No cenário político atual, o retorno de Dahlan poderia ser aceito pelo Hamas por significar a queda de Abbas. Ao mesmo tempo, o novo líder seria alguém com livre acesso aos membros mais importante do eixo sunita e, claro, com acesso aos EUA – que não querem a eclosão de um novo conflito entre Hamas e Israel porque a situação representaria um problema internacional com o qual não querem líder. Donald Trump esteve na Arábia Saudita, fez negócios e comprou explicitamente a teoria local das monarquias do Golfo. No momento em que o presidente Trump se mostra muito interessado em costurar um acordo entre os países árabes e Israel e também encontrar alguma forma de acomodação entre israelenses e palestinos (para obter uma vitória grandiosa sobre seu antecessor Barack Obama), Mohammed Dahlan pode ser a peça que faltava no tabuleiro regional.