Velhas forças políticas em atuação na nova crise em Jerusalém

24 de Julho de 2017
Por Henry Galsky Ainda relacionado ao meu texto mais recente sobre a crise política interna palestina, temos agora uma situação com grande capacidade explosiva: o Monte do Templo, como os judeus o chamam, ou o Nobre Santuário (Haram al-Sharif), nome dado ao mesmo lugar pelos muçulmanos. Nas oportunidades recentes em que esta pequena localidade sagrada de Jerusalém esteve no centro dos acontecimentos na disputa entre israelenses e palestinos, uma onda de protestos e violência tomou a região. Importante dizer que as supostas alegações religiosas sempre estão na base para a concretização de realizações políticas.
 
A disputa interna entre Hamas, em Gaza, e o Fatah, do presidente palestino Mahmoud Abbas, na Cisjordânia, contribui diretamente para o início desta crise atual. Vamos aos fatos em ordem cronológica: na sexta-feira, dia 14 de julho, três árabes com cidadania israelense armaram um plano de usar o espaço sagrado da Mesquita de Al-Aqsa (parte do complexo onde está a mesquita e o santuário islâmico do Domo da Rocha) para transportar armamento. Na saída, atiraram e mataram dois policiais israelenses. O ato recebeu a resposta institucional de Israel: o complexo foi fechado e as autoridades de segurança instalaram detectores de metal na entrada. Até aí, aparentemente nada de mais grave, certo? Errado. 

Nesta parte do mundo, as sensibilidades e suspeições são tão exacerbadas que sobre determinações simples já há uma série de teorias. Muitas delas infundadas. Em primeiro lugar, é preciso dizer que aparelhos de detecção de metal são aplicados em muitos dos principais centros de peregrinação religiosa ao redor do planeta. Ali ao lado mesmo, no Muro Ocidental, lugar mais sagrado do judaísmo em todo o mundo (que por aqui é mais conhecido como Muro das Lamentações), todos os visitantes – independente de suas crenças – são submetidos aos procedimentos de segurança. Mesquitas em muitos países usam essas mesmas ferramentas de controle, ainda mais em períodos históricos tão instáveis quanto o que vivemos. 

A questão envolvendo os detectores de metal no complexo do Monte do Templo / Nobre Santuário está relacionada a um misto de paranoia, teorias da conspiração e, acima de tudo, embate geopolítico exacerbado fruto do impasse permanente que cerca o complicado e estagnado processo de paz entre israelenses e palestinos.  

Para muitos muçulmanos – muitos deles incentivados por líderes políticos e religiosos – o estabelecimento por Israel de medidas de segurança no Monte do Templo / Nobre Santuário marcaria a alteração do status-quo. Ou seja, a soberania israelense – em vigor em Jerusalém desde a vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967 – significaria também que os judeus iniciariam a retirada dos templos muçulmanos do local para a reconstrução do Grande Templo judaico da cidade.
 
O Grande Templo (daí o nome Monte do Templo) era o principal e mais sagrado local de culto religioso judaico até ser destruído pela segunda vez e de maneira definitiva até os dias de hoje no ano de 70 da Era Comum pelos romanos (o Muro Ocidental ou Muro das Lamentações é a única parte que restou do templo). A ideia de que o Estado de Israel moderno deseja alterar a configuração para a construir o Terceiro Templo é bastante difundida por clérigos muçulmanos, muito embora haja poucas evidências de que isso irá acontecer. Principalmente porque os atores envolvidos sabem do enorme potencial catastrófico que uma decisão como esta poderia causar. 

O fato é que sempre há quem faça uso deste tipo de teoria como forma de manobra política. Como escrevi em meu texto anterior, este é um momento de enfraquecimento do Hamas em função da realidade maior do cenário geopolítico regional. Acelerar para criar uma nova Intifada seria um passo para novamente acenar com protagonismo político – a razão permanente de disputa e atuação do Hamas. A ideia seria criar um problema não apenas a Israel, mas ao presidente palestino Mahmoud Abbas, que passou a sufocar o Hamas em Gaza com o corte quase total de fornecimento de energia à região. Abbas pretendia provavelmente forçar o Hamas a um novo enfrentamento com Israel, como escrevi, que por sua vez responderia com ampla força militar, enfraquecendo novamente o grupo. 

Iniciar uma nova Intifada que se espalhasse não somente por Gaza, mas também pela Cisjordânia, significaria devolver a crise para o quintal de Abbas, desgastando ainda mais o presidente já sem grande legitimidade interna. É claro que todos esses passos não foram necessariamente esquematizados, mas essas podem ser facetas reais da crise atual. Além de testar a capacidade de resposta de Trump e do eixo sunita num cenário novo e desconhecido (eixo aliás que se opõe à Irmandade Muçulmana e ao próprio Hamas). O sucesso do grupo neste momento pode se resumir ao enfraquecimento – e quem sabe à queda – de Mahmoud Abbas. 

Por trás dos detectores de metal, a geopolítica local e regional. A soberania e o status-quo de Jerusalém são questões centrais do conflito entre israelenses e palestinos. Na prática, por mais que, como escrevi, Israel tenha soberania sobre ambas as partes de Jerusalém (oriental e ocidental) desde 1967, este é um assunto de extrema sensibilidade aos dois lados do conflito. Qualquer movimentação israelense – especialmente no Monte do Templo / Nobre Santuário – é interpretada com enorme suspeição pelos palestinos. O tênue equilíbrio alcançado entre Israel e Jordânia (responsável por administrar o local como representante dos interesses islâmicos) está sempre por um fio. E é exatamente isso o que está acontecendo agora.