Lideranças regionais querem surfar na onda da crise em Jerusalém

26 de Julho de 2017
Por Henry Galsky
A crise em Jerusalém significa por ora um grande revés a Israel. Ao contrário do olhar objetivo e pragmático do governo Netanyahu, os muitos inimigos e adversários regionais do Estado judeu conseguem enxergar a situação como oportunidade para resolver seus próprios assuntos internos e também interferir no projeto de sucesso do primeiro-ministro israelense.
 
Depois de uma semana de idas e vindas, está claro o que o impasse atual representa: a disputa por Jerusalém. No ano em que os israelenses celebram os 50 anos de reunificação da cidade, há muitos interessados em reabrir a questão: os palestinos – separados na prática sob duas lideranças opostas e rivais, Hamas e Autoridade Palestina –, a Liga Árabe (que enfrenta problemas muito complexos, como a crise humanitária na Síria, os estados falidos regionais, o EI, a disputa entre Catar e as monarquias do Golfo) e até o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. 

Em comum a todos esses atores regionais, a larga experiência em usar a ficha de Israel. Erdogan fez muito uso desta estratégia no passado, especialmente em 2010 quando patrocinou a flotilha que buscava furar o bloqueio marítimo a Gaza, imaginando que o enfrentamento indireto com os israelenses pudesse lhe ser útil em suas ambições internacionais (e ele foi bem-sucedido nesta análise, diga-se de passagem). Agora voltou a fazer carga novamente. Depois de anos de irrelevância internacional e de problemas domésticos de difícil solução, apelar à união islâmica contra Israel é um lugar-comum.
 
Erdogan botou ainda mais fogo na questão ao afirmar que os israelenses pretendiam tomar a Mesquita de Al-Aqsa dos muçulmanos (?) sob o argumento de enfrentar o terrorismo. Como escrevi no texto anterior, esta narrativa é muito popular em países árabes e islâmicos. Quando citada por uma liderança política islâmica de expressão (presidente de um país com grande complexidade econômica e membro da Otan), ela ganha ainda mais força. É acender o isqueiro ao lado do barril de pólvora.
 
O ambiente político palestino é frágil e está dividido. A disputa entre o Hamas e a Autoridade Palestina (AP) tem deixado Gaza às escuras. Escrevi também no texto anterior que a crise atual favoreceria ao Hamas ao expor o presidente palestino, Mahmoud Abbas, especialmente no período em que sofre ampla rejeição da opinião pública interna e sua liderança é cada vez mais questionada. 

A crise a partir dos detectores de metal caiu no colo de Abbas como um grande problema, mas está sendo tratada como tábua de salvação. Uma revolta popular neste momento capaz de unir as populações de Gaza e na Cisjordânia (além da população islâmica em todo o mundo) é um presente que caiu do céu, imagina Abbas. Reabrir o status de Jerusalém justamente na efeméride dos 50 anos da Guerra dos Seis Dias e no momento em que a presidência palestina é questionada é um desses eventos raros. Para Abbas, aderir ao movimento e reivindicar sua “paternidade” é uma necessidade de sobrevivência. O Hamas, adversário do presidente palestino, também pretende surfar na onda da insurreição árabe em Jerusalém. 

Para Israel – e especialmente para o primeiro-ministro Netanyahu – restou o pior cenário: se antes era preciso aumentar a segurança no Monte do Templo, agora é preciso fazê-lo tendo de enfrentar uma revolta árabe e muçulmana internacional. Para piorar, o presidente palestino quer abraçar o movimento, não contribuir para o retorno à situação anterior. Se o primeiro-ministro israelense estava muito perto de alcançar um acordo regional e inédito com as monarquias do Golfo Pérsico, diante da situação atual isso é absolutamente impossível.