A vitória do Hezbollah diante da Al-Qaeda

03 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky A desorganização política no Oriente Médio impacta não apenas na catástrofe humanitária na Síria e no Iraque, mas também na atuação dos atores que buscam protagonismo. Com fronteiras indefinidas, os papéis políticos se encontram em aberto, o que é considerado como oportunidade para muitas das forças em disputa militar e retórica na região. Neste aspecto, há um certo vanguardismo, termo normalmente usado para designar aspectos positivos. No entanto, como nada é simples nesta parte do planeta, a realidade alterou este conceito, como mais uma das tantas consequências do caos local. 

O Hezbollah, a milícia xiita libanesa, concretizou um acordo com a Frente Al-Nusra, uma das ramificações da Al-Qaeda. Um comboio com 117 ônibus e cerca de oito mil pessoas a bordo deixou a cidade libanesa de Arsal e retornou à Síria. Entre os passageiros, 120 membros da Al-Qaeda. Em troca da retirada de refugiados sírios e terroristas da Al-Qaeda, oito membros do Hezbollah foram devolvidos ao Líbano. 

Em 2014, Arsal foi a primeira cidade libanesa ocupada pela Al-Nusra. Poderia ser o início da tomada parcial do território do país em virtude da guerra civil síria. O exército libanês não foi capaz de expulsar os terroristas. Em 2017, o Hezbollah entrou no conflito, mas tampouco obteve sucesso. Neste ano, a milícia xiita abriu negociações, agora concretizadas. O sucesso do grupo é mais uma vitória para os atores não-estatais no Oriente Médio. De maneira pragmática, o Hezbollah certamente passa a capitalizar o sucesso na proteção das fronteiras libanesas em oposição ao fracasso do exército do país e, por consequência, do próprio Estado nacional libanês. 

Lutando ao lado de Bashar al-Assad, Rússia e Irã, o Hezbollah se estabelece a cada dia como parte do processo oficial, inclusive extrapolando as fronteiras do território do Líbano. Na política doméstica do país, o grupo já é parte do tecido, muito embora não seja avaliado positivamente de maneira unânime. A atuação do Hezbollah recebeu crítica inclusive do primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, que defendia a coordenação da ONU no processo de devolução dos refugiados sírios. 

O novo patrão regional, a Rússia, tem obtido sucessivas vitórias estratégicas graças às alianças estabelecidas. Moscou anunciou cessar-fogo em mais uma zona de segurança na Síria (a terceira a ser constituída). No final de agosto, novas zonas de segurança serão discutidas em Astana, capital do Cazaquistão. O governo russo imagina a solução na Síria não como um acordo amplo (muito complexo e difícil de ser alcançado), mas como retomada em etapas de porções do território. No final, assim parecem pensar os estrategistas russos, o EI e os demais grupos em atuação ficarão estrangulados. Não se imagina que a Síria retornará ao seu território integral anterior ao início da guerra civil, em 2011. Mas a ideia é garantir um governo possível a Bashar al-Assad. A derrota completa dos grupos opositores e do EI será escalonada.
 
Mas, como a Rússia não poderá permanecer indefinidamente com suas tropas, as zonas de segurança serão os territórios disputados ou divididos entre seus aliados. A influência regional de Hezbollah e Irã pode ser ampliada a partir disso, inclusive. Sob o ponto de vista específico do Hezbollah, um grupo com influência local no Líbano, imaginar o início de protagonismo regional representa um passo grande, até bem pouco tempo impossível de ser alcançado. A aliança com a Rússia é, para o Hezbollah, o começo de uma transformação definitiva para as aspirações da milícia xiita libanesa. E, por consequência, combustível a todos os atores não-estatais da região.