A Rússia e os acertos finais na Síria

10 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky O concerto de forças estabelecidas na Síria está em choque permanente. A ideia de estabilizar o país e derrotar o Estado Islâmico pode até parecer consensual sob o ponto de vista dos Estados nacionais. No entanto, há muitas divergências sobre o processo e suas consequências internacionais, especialmente aos atores regionais. Neste momento, há embates teóricos sobre o futuro da Síria no dia seguinte ao encerramento, mesmo que parcial, da guerra civil. 

Há dois fóruns empenhados em discutir caminhos. Eles podem ser complementares ou concorrentes, a depender dos resultados reais alcançados. Com uma visão mais política e cuidadosa, as conversações de paz de Genebra, na Suíça, capitaneadas pela ONU. O patrocínio das Nações Unidas pretende alcançar objetivos no longo prazo. As negociações são lentas. 

O outro fórum tem ocorrido em Astana, capital do Cazaquistão, e reúne os principais atores reais dos acontecimentos em solo: Rússia, Irã, Turquia, o governo do ditador sírio Bashar al-Assad e os grupos que se opõem a ele. Desde janeiro, foram cinco encontros. 

Há ainda rodadas de negociações secretas, como as que ocorreram entre representantes de Rússia, EUA e Israel. De acordo com o jornal israelense Haaretz, esses encontros tiveram como propósito a discussão das configurações de fronteira da Síria com Israel e da Síria com a Jordânia depois que a guerra civil em território sírio se encerrar. 

Há alguns resultados práticos a partir de todas essas movimentações: o primeiro resultado se refere ao estabelecimento de zonas de segurança e cessar-fogo na Síria; em 8 de julho, russos, americanos e jordanianos anunciaram o acordo que passaria a viger no sul do país. Tem ficado claro, como escrevi por aqui, que o olhar pragmático de Moscou não imagina uma solução definitiva, mas a criação de “zonas de segurança” capazes de isolar o EI. 

Sob a presidência de Donald Trump, os EUA parecem ter comprado a ideia. Trump e Putin querem resolver a situação sem que, para isso, seja necessário chegar a um acordo amplo. A ideia é conseguir criar alternativas, mesmo que os detalhes sejam discutidos mais para frente. 

O curioso desta situação é que atores regionais importantes e aliados a Washington – como Israel e as monarquias sunitas – têm ficado de lado. Rússia e EUA não estão preocupados com as demandas estratégicas desses países porque têm dado preferência a um olhar menos pontual. 

Na prática, nem o Kremlin, nem a Casa Branca têm considerado seriamente os ganhos que o Irã pode obter na Síria, o que causa profundo descontentamento a Israel e às monarquias sunitas regionais. Este é um posicionamento curioso adotado por parte dos EUA não apenas devido ao histórico de relacionamento com esses países, mas às recentes visitas que Trump fez ao Oriente Médio. 

A reiteração da proximidade com as monarquias sunitas e com Israel não parece ter influenciado as decisões sobre a Síria. Entre os aliados históricos e a Rússia, Trump fez a opção por Putin, uma escolha que, na política doméstica americana, pode vir a ter impactos diretos nas investigações de membros da campanha e do governo atual. 

Simultaneamente, a Rússia tem dado cada vez mais sinais de que pretende encerrar sua participação como protagonista na campanha militar síria. Isso não significa que queira se distanciar do protagonismo regional, importante deixar claro, mas reduzir seus gastos militares. Para isso, tenta fazer uso de sua posição de potência e convencer sua esfera de influência a se responsabilizar, mesmo que parcialmente, pela execução do trabalho pesado. 

Moscou quer pôr em prática os mecanismos de defesa da Comunidade dos Estados Independentes, organização que nasceu na esteira do fim da União Soviética e reúne 11 ex-repúblicas da URSS. A ideia é convencer os países da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, em inglês. Foto do encontro realizado em abril) a enviar tropas para monitorar as zonas de segurança na Síria. Além da Rússia, fazem parte do CSTO a Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão. 

A estratégia russa é se estabelecer como Estado patrão no comando do novo Oriente Médio por meio de seus aliados próximos, o que se convencionou chamar de “procuração”. Está muito claro que neste novo cenário Moscou pode enfraquecer atores locais estabelecidos graças aos novos procuradores: os membros do CSTO, Irã e Hezbollah, todos eles contraindo dívidas estratégicas relevantes com a Rússia. Aos poucos, o Oriente Médio caminha para apresentar a configuração desejada por Vladimir Putin.